terça-feira, 21 julho, 2026
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Eloi Zanetti: Meninos e Burros

Por Eloi Zanetti (contato: eloizanetti@gmail.com) – Há uma cena emblemática no filme Pinóquio (1940), de Walt Disney, em que os meninos são atraídos por duas raposas para um parque de diversões: a Ilha dos Prazeres. Ali, é-lhes proposta uma vida plena de facilidades, onde se pode jogar baralho, sinuca e até fumar charutos — práticas consideradas subversivas para a moral da época. Essa poderosa metáfora, presente desde o conto original de Carlo Collodi (1883), revela uma armadilha sutil: em meio à maior festa, os meninos começam a perceber que estão se transformando em burros. Crescem-lhes orelhas, rabos e patas. Ao urrarem desesperados, arrependidos do embuste, são sumariamente encaminhados ao trabalho forçado para puxar carroças.

Essa alegoria ilustra com precisão o ambiente empresarial contemporâneo. Jovens profissionais, entre 25 e 40 anos, passam exatamente pelo mesmo processo de sedução. O convite é o mesmo: “Venha trabalhar conosco; nós lhe daremos participação nos resultados, status, viagens internacionais, convenções festivas, laptops e celulares de última geração, prêmios por desempenho e uma rápida ascensão profissional”. A contrapartida, contudo, exige o sacrifício da própria existência: “Mas você tem que dar tudo de si, trabalhar até tarde, abrir mão do convívio com a família e os filhos, e se dedicar integralmente à nossa causa — gerar lucros para os nossos stakeholders”.

Quarentões e quarentonas, após dedicarem a fase mais criativa e produtiva de suas vidas às corporações que amavam, são frequentemente dispensados sem a menor cerimônia. É nesse momento que desperta a percepção da amarga realidade: a empresa na qual empenharam suas forças não passa da ilusão de uma família risonha e franca. Aí, já é quase tarde quando esses “meninos-burros”, agora exaustos, são substituídos por uma força de trabalho mais jovem, barata e igualmente seduzível. Resta-lhes o dilema: buscar outra colocação, abrir o próprio negócio ou, finalmente, diminuir o ritmo?

O ritmo de trabalho nas grandes corporações tornou-se insano. Encontro, por toda parte, profissionais desesperados com a carga imposta pelas metas. Alguns vivem estressados como soldados em campos de batalha; outros tornam-se vítimas de acidentes graves por déficit de atenção causado pela estafa, e muitos enfrentam processos dolorosos de separação matrimonial.

Certa vez, fui contratado por uma empresa para coordenar um workshop com seu pessoal de serviços. Recebi o briefing das mãos de um gerente extremamente exigente. Ele exigia produtividade máxima: era tudo ou nada. Seus “colaboradores” traziam lucro ou seriam dispensados. A ordem era pressionar a equipe até o limite, extraindo o máximo que pudessem oferecer, pois sua própria carreira estava em jogo. Os feitores dos tempos escravagistas pareciam mais complacentes. Dias antes do evento, liguei para alinhar os últimos detalhes, mas os planos haviam mudado drasticamente: o gerente sofrera um infarto fulminante e fora internado às pressas em uma UTI. A pressão implacável que ele impunha aos outros voltara-se contra si próprio.

Em outro caso, um gerente de contas, recém-casado e com um filho pequeno, dirigia por uma autoestrada enquanto era obrigado a manter-se conectado ao celular para reportar o andamento do trabalho em tempo real. O resultado foi uma colisão frontal com um caminhão. Ele escapou da morte por milagre. Ao acordar no leito hospitalar, fez um balanço profundo de sua jornada, desligou-se da empresa e buscou outra ocupação — desta vez, guiada por um propósito melhor.

Há um profundo contrassenso nos discursos corporativos. As organizações romantizam conceitos como “qualidade de vida”, “melhor lugar para se trabalhar” e “empresa modelo”, enquanto, nos bastidores, promovem o esgotamento de suas equipes. Lucros imensos, obtidos às custas dessa saúde coletiva, são frequentemente pulverizados em operações financeiras arriscadas ou em transações especulativas nas bolsas de valores, onde ativos empresariais são negociados como mercadorias triviais.

Aqueles que dão o sangue pela operação não entram na equação de valor; são tratados como meros insumos descartáveis, assim como móveis e equipamentos. Só não são formalmente chamados de semoventes — animais de carga — porque o termo há muito foi banido dos registros contábeis modernos.

É evidente que a competição, a produtividade e a meritocracia são engrenagens necessárias para o desenvolvimento econômico. No entanto, é preciso resgatar a premissa de que o trabalho deve ser um meio de vida, nunca de morte. Para agravar o cenário, todo o esforço hercúleo que fazemos para sermos produtivos no ambiente privado acaba sufocado pela inoperância do Estado brasileiro: impostos escorchantes, burocracias sufocantes, regras draconianas, corrupção endêmica, falta de infraestrutura e serviços públicos precários.

No Brasil de hoje, ser um funcionário exemplar ou um empreendedor dedicado tornou-se um grave fator de risco à saúde.

Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com

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