segunda-feira, 6 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: 1964: Revolução, Contrarrevolução, Golpe, Contragolpe?

Por Antenor Demeterco Junior (*)

João Goulart: discurso cambaleante

A dificuldade em enquadrar historicamente os acontecimentos da época, já pelos diversos rótulos sugeridos para os mesmos, evidencia problemas para historiadores dignos deste nome (não para militantes enraivecidos).

A ação militar expulsória foi reacional a uma situação anarquizante, resultante do incentivo (com mais certeza) ou da omissão de um governante, pano de fundo incontestável do momento.

Recordar o óbvio nunca é demais, pois quem pisa no acelerador da anarquia chama inconscientemente a autoridade (segundo Ernest Renan, racionalista francês do século XIX), lei histórica pendular no quadrante de todos os países do universo.

TUDO PREVISÍVEL

A reação militar foi tão previsível como o estrondo sequencial de um raio.

Em setembro de 1963, tão logo o STF suspendeu o mandato de sargentos eleitos no ano anterior, centenas de sargentos, fuzileiros e soldados se rebelaram em Brasília: ocuparam prédios públicos e prenderam o presidente interino da Câmara dos Deputados e um ministro do tribunal, Victor Nunes Leal.

A disciplina, a hierarquia militar, a Constituição foram para o lixo com a baderna.

O comício de 13 de março de 1964 na Central do Brasil, realizado de fronte do Ministério da Guerra, contou com a presença do presidente da República e apresentação de propostas radicais.

DISCURSO DE JANGO

Após o discurso, estafado e cambaleante, João Goulart bateu a cabeça no teto do veículo que o esperava, perturbado emocionalmente com muito uísque no caco (a informação é de Jorge Ferreira, seu biógrafo, “in” “João Goulart – Uma Biografia”, p. 428).

Em 25 de março o Ministro da Marinha mandou prender dirigentes da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais e é desobedecido e demitido: houve confraternização na baderna.

O novo Ministro foi indicado em lista tríplice por trabalhadores, sendo expelido do cargo em cinco dias.

Em 30 de março o presidente discursou em reunião de sargentos no Automóvel Clube, no Rio de Janeiro.

ADVERTÊNCIA DE TANCREDO

Tancredo Neves: aviso de amigo

Não escutou a advertência de seu amigo Tancredo Neves: se falasse na assembleia não sairia de lá presidente (“Tancredo Neves a Noite do Destino”, p. 284, de José Augusto Ribeiro).

Outro amigão insuspeito de Jango, o jornalista Samuel Wainer, seu propineiro confesso, revela em suas memórias que ele, Jango, preparava um golpe, a ser financiado com a grana das propinas captadas com empreiteiros (cf. “Minha Razão de Viver”, p. 322).

É de se concluir que ação militar foi meramente reacional a uma ação que se arquitetava no próprio palácio presidencial, e com a anarquia insuflada de militares subalternos.

LEITOR E JUIZ

O próprio leitor tem condições de qualificar os fatos da época, apontando uma das quatro hipóteses propostas no título deste escrito.

Quanto ao que veio depois, com a palavra historiadores dignos deste nome, não cooptados ideologicamente por ex-assaltantes de bancos, ex-sequestradores de diplomatas, ex-sequestradores de aviões, ex-justiceiros de companheiros desistentes, ex-assassinos de mateiros e militares (inclusive estrangeiros), ex-torturadores (um deles é hoje conhecido bicheiro).

ESTÃO CONDENADOS

Hoje muitos destes personagens são peculatários condenados pelo Poder Judiciário.

A Nação e a História do Brasil exigem a verdade sobre os fatos acontecidos antes e durante o regime autoritário, não uma versão (e pior, uma versão unilateral).

A fila de se dizentes vítimas de pancadas foi espichada, quando indenizações entraram no pedaço e visaram um cala boca.

Grande mancada, pois o vozerio foi ativado com a possibilidade de grana compensatória.

ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, advogado, desembargador aposentado do TJ-PR; estudioso da História do Século 20

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