quarta-feira, 1 julho, 2026
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MEMÓRIA DA CURITIBA URBANA: O arquiteto e o posto

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Elgson Ribeiro Gomes...
Elgson Ribeiro Gomes…

Há cerca de quatro anos, um cinzento tapume metálico esconde as instalações de um posto de gasolina desde então desativado, na esquina das ruas Comendador Araújo e Brigadeiro Franco, no centro da cidade.

Quem passa pelo local, não se dá conta que ali funcionava, até por volta de 2014, o Posto Horizonte. Até aí, nada demais. Mas foi o primeiro posto, na região central, projetado por um arquiteto, fugindo da mesmice dos concorrentes e construídos pelos respectivos donos com ajuda das distribuidoras petrolíferas. A mesmice consistia num grande pátio com uma cobertura padrão, e instalações anexas, sem graça, que abrigavam a administração e as rampas para lavagem e troca de óleo dos veículos – verdadeiros “caixotes”, como se costuma dizer.

CANET ERA DONO

... e o icônico Edifício Canadá, na Comendador Araujo
… e o icônico Edifício Canadá, na Comendador Araujo

O Posto Horizonte pertencia ao já falecido empresário e ex-governador Jayme Canet Jr., que em 1963 contratou os serviços de Elgson Ribeiro Gomes, um já veterano arquiteto catarinense, que brindou a cidade com um posto de linhas futuristas e típicas da época. Ostentando a bandeira anglo-britânica Shell, o Horizonte primava pelo arrojo, com cobertura dos boxes de lavagem e lubrificação composta de duas cascas de concreto atirantadas em dois pórticos triarticulados. Elgson Gomes, que faleceu aos 91 anos, em 28 de março de 2014, apresentava aos consumidores o ineditismo que dispensava as tradicionais coberturas metálicas, atraindo motoristas a um ponto de venda que, a exemplo dos demais postos, oferecia serviços de excelência, mas tinha como principal atrativo o arrojo dos traços marcantes de uma época.

MUITAS GERAÇÕES

Durante o período de vida, o posto viu passar pelas bombas de combustível as muitas gerações automotoras, como os pioneiros Fuscas, Dauphine, Gordini, Simca Chambord, Aero Willys; depois, Ford Galaxie e Dodge Dart – verdadeiros devoradores de combustível por litro; mais à frente, já compactos, Corcel, Chevette, Dodge Polara, Voyage, Parati, o ciclo recente encerrando as atividades com a presença de veículos globalizados e charmosos, inclusos os das novíssimas gerações oriundas dos países orientais e/ou europeus fabricados em grau de igualdade o Brasil.

FUNCIONOU 50 ANOS

O Posto Horizonte funcionou ininterruptamente durante cerca de 50 anos, viu sua arquitetura gradualmente modificada, na maioria das vezes sem consulta prévia ao “pai” do projeto, perdeu parte de sua identidade no período, e hoje, além da lembrança, deixa à vista, para quem está Rua Comendador Araújo, parte da placa com o preço de combustíveis, lembrando que o litro de gasolina aditivada, quando da desativação, custava R$ 3,38 – bem abaixo dos mais de R$ 4 hoje em curso.

EDIFÍCIO-GARAGEM

No tapume metálico, pequenas placas informam que em data não estipulada o velho posto com tanta história dará lugar a um edifício-garagem. Algo inusitado, numa Curitiba que no andar dos anos 1970 foi a pioneira na adoção de modernas políticas de mobilidade urbana – como a implantação de um inédito e eficiente Sistema de Transporte por meio de ônibus expressos, bloqueio de ruas centrais, a partir daí destinadas exclusivamente para pedestres e ideias afins, colocando o transporte individual em segundo plano.

ELGSON RIBEIRO GOMES

Parte dessa história tem Elgson Ribeiro Gomes como importante partícipe. Ele contribuiu para mudar e modernizar a paisagem urbana central. Elegante, formal, gentleman, o catarinense de Florianópolis nascido em 16 de novembro de 1922, nas décadas de 1930 e 1940 estudou e viveu no Paraná. Em 1941 cursou como bolsista do governo estadual o primeiro ano da Faculdade de Engenharia da UFPR. Formado quatro anos depois, foi nomeado engenheiro da Prefeitura de Curitiba.

A CARREIRA

De 1946 a 1959 viveu em São Paulo. Em 1947, matriculou-se na Faculdade de Arquitetura do Mackenzie (SP), mas cancelou a matrícula para, de 1950 a 1959, atuar no escritório de Arquitetura do renomado arquiteto Adolf Heep, vindo de Paris. Rematriculou-se em 1957, formou-se no ano seguinte, quando volta a Curitiba e abre seu próprio escritório.

PRÉDIOS ÍCONES

Quem circula pela cidade, conhece um pouco do intenso trabalho do arquiteto que ajudou a reformular o cenário central de Curitiba. O Edifício América, na esquina da Travessa Frei Caneca e Rua André de Barros, foi o primeiro grande projeto do recém-retornado. São também de Elgson Gomes prédios-ícones como o Alvorada, na esquina das ruas Mariano Torres e Marechal Floriano; Provedor André de Barros, na Praça Osório; Paraná, no encontro das ruas Visconde do Rio Branco e Comendador Araújo; Banrisul, no cruzamento das duas Marechais; Itália, na Rua Professor Fernando Moreira; Jayme Canet, na Rua Voluntários da Pátria; Gemini, na Rua Visconde de Nacar, e Leonor Moreira Garcez, na esquina das ruas Cabral e Carlos de Carvalho.

MANOEL COELHO, DELY

Autor de projetos não só de edifícios residenciais, mas também de hospitais, revendas de veículos, residências individuais, clubes e universidades, Elgson Ribeiro Gomes estava à frente de seu tempo.

Conhecido Brasil e mundo afora por conta de projetos que incluem o inscrito no concurso internacional para reerguimento do World Trade Center, em Nova Iorque, desaparecido no atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, antecedeu a geração de engenheiros/arquitetos – mas também com eles conviveu -, como os saudosos Lubomir Ficinski Dunin, Rafael Dely. O legado aprendido e apreendido por Gomes com seu mestre enquanto estudante, o engenheiro Eduardo Fernando Chaves, foi devidamente transmitido às novas gerações, com destaque para outro arquiteto catarinense, o carinhosamente chamado “Mané da Ilha”, Manoel Coelho.

PALÁCIO SÃO FRANCISCO

Chaves, apenas a título de lembrança, foi quem, nos primeiros decênios do século XX, foi responsável pelos dois projetos conhecidos: o do Palácio São Francisco, sede do governo estadual de 1930 a 1954, e o do chamado Castelo do Batel, que por anos a fio abrigou a sede da TV Paranaense – Canal 12. Ambos originalmente residências. (com contribuição de Raul Guilherme Urban).

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