domingo, 28 junho, 2026
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DESISTO, A CIVILIZAÇÃO NÃO É PARA O BRASIL

Clovis Rossi: leitura obrigatória
Clovis Rossi: leitura obrigatória

Vale a pena reproduzir artigo de Clóvis Rossi, publicado na Folha (29):

Que Michel Temer é despreparado para presidir a República não chega a ser propriamente uma novidade. Se não fosse um político medíocre, teria sido lembrado (pelo menos lembrado) para ser o candidato de algum partido ao governo do seu Estado (não foi lembrado nem para ser candidato a prefeito de sua cidade).

LOCAUTE

Ainda assim, choca o colossal fracasso dele e do conjunto do governo para lidar com o locaute das transportadoras, travestido de greve de caminhoneiros. Se você tem dúvida, leia a Folha deste domingo (27) que, já na primeira página, informa que transportadoras (e não autônomos) controlam 60% dos fretes do país (70% no caso de transporte de longa distância).

BOULOS E O MCSC (MOVIMENTOS DOS CAMINHONEIROS SEM CAMINHÃO)

Nesse item específico, o despreparo não é do presidente. Guilherme Boulos, o pré-candidato presidencial do PSOL, achou que a greve/locaute era iniciativa de um suposto MCSC (Movimento dos Caminhoneiros sem Caminhão), filial do feudozinho que ele controla, o MTST.

Tampouco é surpreendente, se se levar em conta a idiotia que domina parte significativa da esquerda desde que caiu o Muro de Berlim.

MOREIRA FRANCO, PATÉTICO

Mas, sejamos justos, o fracasso é de toda a superestrutura institucional do país. Do governo federal, já falei, mas ainda vale lembrar a patética entrevista do ministro Moreira Franco à Folha. Como se sabe, entidades de caminhoneiros, desde o ano passado, estavam advertindo o governo dos problemas que enfrentavam e anunciando mobilização.

NÃO DÁ TEMPO PARA LER A CORRESPONDÊNCIA

Moreira Franco, no entanto, alegou que não dá tempo para ler toda a correspondência que chega ao palácio. OK. Pena que dê tempo, sim, para receber, no escurinho do cinema, um empresário como Joesley Batista para uma conversa nada republicana.

Enfim, cada um dá o que tem no governo, certo?

DIREITO DE IR E VIR

Se o governo tivesse muito a dar, já na semana passada as autoridades teriam jogado todo o peso das instituições policiais e militares para desobstruir as estradas e, assim, para garantir o abastecimento. Em qualquer país um pouquinho organizado, há um limite para dialogar com movimentos grevistas. Encerrada a negociação — como o governo disse, uma e outra vez, que ocorrera —, parte-se para defender as necessidades do conjunto da população e para restabelecer o direito constitucional de ir e vir, que vale para todos e não pode ser condicionado por quem quer que seja.

SOB A AMEAÇA DE ARMAS

Essa iniciativa tornou-se ainda mais gritante depois que se soube que caminhoneiros estavam sendo ameaçados (até com armas, em alguns casos) para que não voltassem ao trabalho (vide o blog do MAG). É crime.

Criminosos não podem ser tratados como coitadinhos.

TÁ TUDO DOMINADO

Já basta que haja pontos das cidades em que a polícia não entra porque estão sob domínio de bandos criminosos armados. Já basta que os presídios sejam território livre para facções criminosas. Permitir que também as estradas (e os postos de gasolina) sejam dominados por gangues é passar de todos os limites.

GOVERNO CENTRAL

Claro que a culpa principal é do governo central, mas não dá para inocentar o resto do mundo político, que se escondeu da crise. Cadê o Congresso Nacional, como instituição?

MÁRCIO FRANÇA

Quem tomou alguma iniciativa para tentar ao menos interferir no processo? Ressalvo apenas o governador Márcio França, de São Paulo, que se mexeu —independentemente de ter sido ou não bem-sucedido.

INICIATIVA

É possível que outros governadores tenham tomado alguma iniciativa, mas não devem ter sido tão relevantes porque não chegaram à mídia, ao contrário do que ocorreu com França.

FALTOU COMBUSTÍVEL?

O que fizeram sindicatos, patronais ou de trabalhadores? Ou as outras instituições da sociedade civil? Faltou combustível para todos e todas?

DITADURAS TEMOS DE MONTE

Vamos ser honestos, o fracasso é de um coletivo chamado Brasil. Fracasso tão formidável que há quem defenda intervenção militar. Já houve (mais de uma aliás), a mais recente durou 21 anos. Não resolveu nenhuma das falências do país, além de ter cometido crimes em série (quem não pode sair de casa por falta de combustível, aproveite para ler os livros de Elio Gaspari, o mais completo e brilhante raio-X da anarquia militar, essa que os anarquistas de araque de agora querem reintroduzir).

Desisto. Jamais chegaremos à civilização, pelo menos no que me resta de vida.

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