domingo, 28 junho, 2026
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UM ”PENNY” PARA QUEM DECIFRÁ-LA

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Dom Moacir Grechi: ex-arcebispo do Acre
Dom Moacir Grechi: ex-arcebispo do Acre

A mim me agrada examinar a “fácies” mais ou menos oculta das pessoas.

Especialmente a dos homens e mulheres atuantes na vida pública. Não me contento em aceitá-los pelo exterior mostrado; me interessa fazer exegese de suas definições, pronunciamentos, e credos, roteiros de vida, a geografia de seus itinerários biográficos, vidas, até à exaustão, se necessário.

Assim, por exemplo, venho olhando com especial cuidado Marina Silva, que acredito deter condições muito fortes de vencer as eleições presidenciais deste 2018. Claro que não tenho pretensões a pitonisa.

VIRTUDE DO MEIO

A “previsão” tem lastro, isso sim, no fato que, em determinado momento das eleições deste ano, a acreana tenderá a aglutinar as convergências da chamada “virtude do meio” – “in médio virtus”.

Marina Silva (Mario Tama-Getty Images)
Marina Silva (Mario Tama-Getty Images)

Ela poderá unir a Nação, dona que é de posições e mensagens palatáveis a milhões de homens e mulheres, exaustas vítimas de radicalismos e oportunistas. Alguns deles até saudosos de chicotadas ditatoriais e porões de torturas.

Não é fácil o exercício de esquadrinhar Marina, e entender de que matéria é feita essa mulher que hoje está logo abaixo de Jair Bolsonaro na preferência do eleitorado brasileiro, segundo pesquisas recentes.

Ela enfeixa, acredito, possibilidade muito forte de ser eleita presidente se as coisas continuarem como estão: Bolsonaro, radical da direita, tem muito para ser rejeitado numa eleição e em que as tendências de opinião se dividirão verticalmente, ceifando-o, e ao mal-humorado Ciro Gomes, uma persistente incógnita.

Marina seria a melhor solução?

A MATÉRIA PRIMA

No meu primeiro contato pessoal com Marina, dia 17, em Curitiba, apenas fui confirmando certezas. A primeira delas, é a de que se está diante de uma mulher obcecada por seu ideário. Não mostra o mínimo interesse em ser simpática a ninguém, eleitores incluídos, claro. Não sorri, mantém-se hierática. A fala é direta, impecável português, um dos milagres dessa mulher da floresta analfabeta até os 16 anos de idade. Não economiza tempo, a mensagem tem sempre prioridade para essa catequista.

Bíblia, tradução do João Ferreira de Almeida
Bíblia, tradução do João Ferreira de Almeida

Mostra dominar algumas frases “domadas”, de tanto abordar determinados temas. Mas não se perde, pode até mesmo corrigir o interlocutor, como fez com jornalistas na quinta-feira. A questão ambiental é sua bandeira.

A fisionomia de Marina é a de uma mística: os vestidos sempre longos, não se pinta, o cabelo preso em coque. Magérrima, não apenas parece distanciar-se dos alimentos. É notoriamente dependente de uma dieta rigorosa em que não entram carnes vermelhas e outros alimentos.

Se não se mostra cansada ao enfrentar uma agenda apertadíssima – “acabo de chegar da Pastoral da Criança”, me diz, para lembrar que o fato de ser pentecostal da Assembleia de Deus não a distanciou da igreja Católica, em que foi criada e se preparou para ser freira.

SEM ALTERAÇÃO

Marina é dura, não se altera diante de indagações maliciosas ou revelações pesadas ou perguntas capciosas. Para tudo parece ter uma resposta pronta, de cara sempre amarrada.

Essa “é a mesma fisionomia fechada que tinha”, me confessa um velho sacerdote que a conheceu no Acre, quando mocinha. Eram tempos em que a futura presidenciável se abrigou sob as asas da Teologia da Libertação e do arcebispo do Acre, o europeu dom Moacir Grechi, por anos seu mentor. O bispo a ajudou a salvar a vida dessa mulher de aparência doentia mas que, na verdade, é uma fortaleza: venceu doenças graves, uma delas a contaminação por mercúrio em garimpo no Acre. Tratou-se em São Paulo, no Hospital São Camilo, por interferência do arcebispo, gratuitamente.

Doenças a levaram, por vezes, a andar 11 horas a pé, na floresta, para buscar remédios para si e para os irmãos.

LONGE DOS RADICAIS

Obstinada, a fala de Marina na noite do 17 em Curitiba, não contemplou palavras simpáticas para a cidade e seu povo. Na entrevista coletiva à imprensa, dividindo a mesa com Jorge Bernardi, candidato ao governo do Paraná, e Flávio Arns, candidato ao Senado, não se referiu aos anfitriões. Tinha pressa em ‘engatar’ uma velha história que vai disseminando Brasil a afora, de defesa do meio ambiente, contra a reforma trabalhista, de defesa dos excluídos sociais e com algum conteúdo de política econômica.

Há anos se afastou dos radicalismos e PT.

Enquanto vou observando a fala da presidenciável vou entendendo a origem de sua precisão.

Tenho certeza que a sua linguagem foi por primeiro “domada” nas comunidades eclesiais de base (CEBs), das negociações sob a égide do Ver, Julgar e Agir. Mas ganhou um plus com a leitura da mais acatada tradução da bíblia em português, a de João Ferreira de Almeida.

É mesma leitura comum de seu oponente, e também assembleiano (de outra facção, a do pastor Malafaia) Jair Bolsonaro.

Só nisso caminham juntos, sob a égide da livre interpretação do livro sagrado. A “sola scriptura” de Lutero.

Hospital São Camilo, de São Paulo
Hospital São Camilo, de São Paulo
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