
O ex-ministro da Saúde e médico pediatra Alceni Ângelo Guerra, 72 anos, tem uma missão árdua pela frente. Acostumado a aparar arestas na vida política, ele assumiu posição de assessor especial da governadora do Paraná, Cida Borghetti, há menos de uma semana. Guerra desvestiu o pijama de homem privado e aceitou convite de Cida, retomando, assim, à carreira de administrador público que prometera abandonar.
SENTIMENTO DE EFEMERIDADE E DE RENOVAÇÃO
Sua tarefa, a princípio, é agir como um bombeiro. Pretende apagar o fogo das vaidades de uma administração pública que carrega em seu bojo o sentimento de efemeridade, em um governo de oito meses e, ao mesmo, de renovação, caso Cida Borghetti conquiste a reeleição. Os números a seu favor podem ganhar fôlego já nas próximas pesquisas. Afinal, há um condimento feminino de confiança que ela, inegavelmente, parece inspirar.
CEM ANOS DE “SOLEDADE”
Guerra é sobrenome, mas está longe de definir a história do gaúcho, nascido em Soledade, no interior do Rio Grande do Sul. Abusando de um trocadilho literário, a família Guerra, certamente, não viveu cem anos de “soledade” antes de fincar raízes profundas e construir um patrimônio invejável em Pato Branco.
NO TREM DESGOVERNADO DE COLLOR
Um fantasma ronda a biografia de Alceni Guerra e dele não vale a pena se esquivar. Quando Ministro da Saúde na administração do ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) – hoje ensaiando uma banda de pífanos (alguns diriam pífios) em sua tentativa de retornar ao Planalto –, Alceni viu seu nome envolvido em escândalo que, em anos posteriores, seria devidamente esclarecido em seu favor, ainda que as sequelas permaneçam.
PRÓXIMO PRESIDENTE
Segundo a versão de Guerra, ele teria sido chamado ao gabinete de Collor em 19 de outubro de 1991 e ouvido dele uma revelação surpreendente:
– Ele me disse assim: “Eu já me decidi. Você será meu sucessor. Quero que perca esse sotaque paranaense, procure os ministros militares, os líderes políticos e o presidente do STF e os deixe informados. Você tem dez dias”.
O CASO DAS BICICLETAS
Foi então, segundo Guerra, que as denúncias se precipitaram. Em poucos dias, os jornais publicaram informações dando conta de que o Ministério da Saúde comprara 22 mil bicicletas superfaturadas, através de uma concorrência fraudulenta que beneficiava as Lojas Do Pedro, pequena rede de comércio de eletrodomésticos localizada em Curitiba. As bicicletas seriam usadas por agentes da Funasa, a Fundação Nacional de Saúde – órgão vinculado ao ministério – para o combate à cólera.
COISA DE ACM
Guerra atribui a responsabilidade da denúncia ao ex-senador baiano Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), cujo projeto era transformar em presidente da República o filho, Luiz Eduardo Magalhães, falecido em 1998, aos 43 anos, e resolveu contra-atacar com um ‘dossiê fajuto’.
– Hoje eu entendo o senador. Eu até o encontrei, tempos depois, e nós tivemos uma longa conversa. Era natural que ele ambicionasse a eleição do filho à presidência. Mas aquele episódio quase enterrou minha carreira política. Por sorte, Paulo Brossard, o presidente do STF à época, e o procurador-geral da República, Aristides Junqueira, entenderam que não havia, no caso, qualquer ilícito penal e o arquivaram – afirma.
(CONTINUARÁ)

