
O mundo ideal nos concursos e vestibulares seria o do teste-padrão.
Todos disputariam em condições iguais porque o conteúdo oferecido em sua formação seria o mesmo. Não importando se a escola pública estivesse localizada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, ou a escola particular em Francisco Macedo, no Piauí.
SALÁRIOS E ESTABILIDADE
As desigualdades educacionais e sociais levam ao gargalo das universidades e dos concursos públicos onde, menos os cargos, as funções, o projeto de carreira, e mais os salários e a estabilidade são ferreamente disputados.
TEMA ESPINHOSO
A esse cenário nada convidativo incluam-se as etnias. O Ministério do Planejamento acaba de publicar, no Diário Oficial, uma portaria que define as diretrizes para os candidatos a cargos públicos federais que se autodeclararem negros. É um tema espinhoso e de relatividade comprovada.
MEZZA NEGRO, MEZZA BRANCO
A portaria vai exigir a heteroidentificação, que é a confirmação, por meio de uma banca composta de cinco pessoas, que a auto declaração do candidato negro é de fato verdadeira. Mas como definir negros e brancos, se há também os miscigenados, os pardos, que, em sua maioria, insistem em afirmar-se negros quando, em verdade, são metade brancos? Os livros de antropologia estão cheios de certezas de que a população negra é maioria no Brasil, quando a predominância é de pardos. Mezza negro, mezza branco.
POBREZA É O DENOMINADOR COMUM
Por outro lado, há um funil no ensino fundamental e médio, este sim relevante, que aponta que os índices de repetência e abandono entre a população parda e negra são mais substanciais. Todos, sem exceção, estão sujeitos a um denominador comum: a pobreza. Pobreza de que o branco também padece.
GARGALO HISTÓRICO
Dizer que os gargalos são históricos é o óbvio. Os escravos libertos certamente saíram atrás na corrida por empregos e na disputa com imigrantes importados no reinado de Dom Pedro II. Mas isso não significa que não se criou um grande bolsão de pobreza entre os brancos, principalmente no Sul do país.
AFERIÇÃO CONSTRANGEDORA
O governo mira em soluções na ponta extrema da educação superior e nos concursos públicos bem remunerados quando todos os filtros sociais (e étnicos) já tornaram a disputa desigual. O remédio são as cotas. Mas a aferição é constrangedora.
ELES, OS ALIENÍGENAS
Não é preciso lembrar que o padrão adotado pela portaria remete aos “testes” aplicados na Alemanha durante a ascensão do nazismo. Através de uma medição improvável e sem base científica, definia-se aquele que era um ariano de ‘raça pura’ e aquele que tinha o sangue de raças alienígenas. A aparência, afinal, era o que contava, apesar da verificação dos ascendentes. Mas isso poderia muito bem ser falsificado.
Herman Goering tinha um padrasto judeu. Magda Goebbels omitiu seus antepassados hebraicos nos documentos.
DIREITOS INDIVIDUAIS
Guardadas as devidas proporções, há que se levar em conta que o critério adotado agora pelo Ministério do Planejamento soa absurdo e resvala nos direitos individuais, previstos no artigo 5º da Constituição. Se o governo quisesse discutir o procedimento em bases sólidas, deveria começar a defender as cotas sociais permanentes e as cotas raciais por tempo determinado.
NEGUINHO DA BEIJA-FLOR: 67,1% EUROPEU
Salvo isso, seria de bom alvitre que as escolas de biologia, já no ensino fundamental, reforçassem a seus alunos o que já se sabe desde o século XIX. A raça é uma só: a humana. Que o diga Neguinho da Beija-Flor, sambista carioca, cuja análise do DNA, realizada em 2007, mostra que 67,1% dos seus genes têm origem na Europa e apenas 31,5% na África. O resto é distorção, supremacia, preconceito e má fé. Não necessariamente nessa ordem.
