
É legal, é. Mas é também imoral. E talvez engorde. Há muito, muito tempo, prefeitos eleitos nas grandes cidades do país (as capitais, em especial) vêm fazendo de seus mandatos o trampolim perfeito para candidaturas ao governo e à presidência da República.
APARIÇÃO FUGAZ
O problema não é exatamente o trampolim, é a pressa. Em menos de um ano e meio, desobrigam-se do cargo, como se cumprissem apenas um rito de passagem, e partem para outra, certos de que os cidadãos órfãos hão de perseverar, inspirados por seus ensinamentos, suas paráfrases e sua lição de vida, deixados no rastro de aparição fugaz, mas produtiva.
DIVINOS E MARAVILHOSOS
Dizer que eles se acham uma entidade divina é pouco. Eles têm certeza. O caso mais recente é o de João Dória (PSDB), prefeito de São Paulo, não político, guindado ao estrelato por motivos que agora parecem insondáveis, mas que diziam respeito a certa insatisfação da população “com tudo que está aí”.
PELO CELULAR
Dória foi eleito no primeiro turno – um feito raro na capital paulista – e passou o primeiro ano de governo em duas frentes: as mídias sociais e qualquer cidade do país e do mundo que não fosse aquela que ele comanda.
Talvez, como o tucano dá a entender, quase tudo se resolva mesmo por meio do aparelho celular, mas não tudo.
ANTES, TRATORADO
De qualquer forma, Dória fez do seu jatinho uma marca e daquele gesto do dedo indicador e do médio em forma de seta uma prova indelével de sua passagem pela prefeitura. Ele acelerou mesmo. Tentou habilitar-se à presidência da República. Foi devidamente tratorado. Apostou então no governo de São Paulo e saiu pré-candidato da convenção do PSDB com um porcentual maiúsculo (79,6% dos votos).
APELO DAS RUAS
O “gestor”, como ele a se autodenomina, não é o primeiro caso eleitoral brasileiro a pegar a onda de popularidade e se projetar o mais rápido possível nos altos escalões políticos. José Serra, o tucano agora macambúzio e sorumbático, registrou até promessa de campanha em cartório comprometendo-se a jamais abandonar a prefeitura para disputar outro cargo executivo. Não cumpriu. A promessa vã foi substituída pelo “apelo das ruas”.
CHEGUEI E FUI
Beto Richa, que se recusou a lavrar compromisso em cartório, assumiu o segundo mandato de prefeito de Curitiba, certo de que seria candidato ao governo em 2010. Em março daquele ano estava devidamente desincompatibilizado.

VASSOURA NA “BOCA”
Dória, convenhamos, nunca escondeu que aquele negócio de bater ponto no paço municipal às 5 horas da manhã e varrer as ruas ao lado de garis era só o início midiático para um fim melancólico, com um slogan que honra o espírito de Washington Luís: ele quer asfaltar estradas (e ruas).
A propósito: aqui em Curitiba o prefeito Rafael Valdomiro iniciou seu mandato atual ‘varrendo’ a Boca Maldita. O marketing teve resultados duvidosos e o alcaide nunca mais foi visto com vassoura na mão. Mas mantém a pose de “varre varre”, aquela do “Varre Varre Vassourinha” que ajudou a eleger Jânio em 1960.
BRANCAS NUVENS
O temor é sempre aquele mesmo. Dória é mais um político pronto a fazer carreira, alçar voo e deixar ao eleitor o legado, que é mais uma impressão: passou em branco como passam as brancas nuvens.
NÃO ME DEIXE SÓ
Se for por isso tudo bem. O medo maior, no entanto, é que atrás de Dória, como de tantos outros políticos esteja lá um pequenino homem, talvez nem tão pequenino assim, soprando-lhe ao pé do ouvido: “Não me deixe só”. Qualquer um sabe no que isso vai dar.
