quarta-feira, 13 maio, 2026
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JOÃO DÓRIA FAZ DA PREFEITURA UM RITO DE PASSAGEM. POBRES PAULISTANOS

João Dória: “gari” de pouca duração; Jânio Quadros: “Verre, varre, vassourinha”
João Dória: “gari” de pouca duração

É legal, é. Mas é também imoral. E talvez engorde. Há muito, muito tempo, prefeitos eleitos nas grandes cidades do país (as capitais, em especial) vêm fazendo de seus mandatos o trampolim perfeito para candidaturas ao governo e à presidência da República.

APARIÇÃO FUGAZ

O problema não é exatamente o trampolim, é a pressa. Em menos de um ano e meio, desobrigam-se do cargo, como se cumprissem apenas um rito de passagem, e partem para outra, certos de que os cidadãos órfãos hão de perseverar, inspirados por seus ensinamentos, suas paráfrases e sua lição de vida, deixados no rastro de aparição fugaz, mas produtiva.

DIVINOS E MARAVILHOSOS

Dizer que eles se acham uma entidade divina é pouco. Eles têm certeza. O caso mais recente é o de João Dória (PSDB), prefeito de São Paulo, não político, guindado ao estrelato por motivos que agora parecem insondáveis, mas que diziam respeito a certa insatisfação da população “com tudo que está aí”.

PELO CELULAR

Dória foi eleito no primeiro turno – um feito raro na capital paulista – e passou o primeiro ano de governo em duas frentes: as mídias sociais e qualquer cidade do país e do mundo que não fosse aquela que ele comanda.

Talvez, como o tucano dá a entender, quase tudo se resolva mesmo por meio do aparelho celular, mas não tudo.

ANTES, TRATORADO

De qualquer forma, Dória fez do seu jatinho uma marca e daquele gesto do dedo indicador e do médio em forma de seta uma prova indelével de sua passagem pela prefeitura. Ele acelerou mesmo. Tentou habilitar-se à presidência da República. Foi devidamente tratorado. Apostou então no governo de São Paulo e saiu pré-candidato da convenção do PSDB com um porcentual maiúsculo (79,6% dos votos).

APELO DAS RUAS

O “gestor”, como ele a se autodenomina, não é o primeiro caso eleitoral brasileiro a pegar a onda de popularidade e se projetar o mais rápido possível nos altos escalões políticos. José Serra, o tucano agora macambúzio e sorumbático, registrou até promessa de campanha em cartório comprometendo-se a jamais abandonar a prefeitura para disputar outro cargo executivo. Não cumpriu. A promessa vã foi substituída pelo “apelo das ruas”.

CHEGUEI E FUI

Beto Richa, que se recusou a lavrar compromisso em cartório, assumiu o segundo mandato de prefeito de Curitiba, certo de que seria candidato ao governo em 2010. Em março daquele ano estava devidamente desincompatibilizado.

 Jânio Quadros: “Verre, varre, vassourinha”
Jânio Quadros: “Verre, varre, vassourinha”

VASSOURA NA “BOCA”

Dória, convenhamos, nunca escondeu que aquele negócio de bater ponto no paço municipal às 5 horas da manhã e varrer as ruas ao lado de garis era só o início midiático para um fim melancólico, com um slogan que honra o espírito de Washington Luís: ele quer asfaltar estradas (e ruas).

A propósito: aqui em Curitiba o prefeito Rafael Valdomiro iniciou seu mandato atual ‘varrendo’ a Boca Maldita. O marketing teve resultados duvidosos e o alcaide nunca mais foi visto com vassoura na mão. Mas mantém a pose de “varre varre”, aquela do “Varre Varre Vassourinha” que ajudou a eleger Jânio em 1960.

BRANCAS NUVENS

O temor é sempre aquele mesmo. Dória é mais um político pronto a fazer carreira, alçar voo e deixar ao eleitor o legado, que é mais uma impressão: passou em branco como passam as brancas nuvens.

NÃO ME DEIXE SÓ

Se for por isso tudo bem. O medo maior, no entanto, é que atrás de Dória, como de tantos outros políticos esteja lá um pequenino homem, talvez nem tão pequenino assim, soprando-lhe ao pé do ouvido: “Não me deixe só”. Qualquer um sabe no que isso vai dar.

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