
Quantos quilômetros de marquises há em Curitiba? Ninguém sabe. A prefeitura, que zela pela cidade, “zerou” os números estatísticos.
Ninguém viu. Há aquelas que se insinuam e invadem o quadrilátero central da cidade, as que singram a Avenida Visconde de Guarapuava, as que dão adeus ao comércio na Sete de Setembro.
UM TOMATE ÀS VENTAS
Houve lei determinando que ali fossem construídas. Não para fazer sombra ao comerciante que labuta, mas para evitar que atirassem coisas aos passantes do alto dos edifícios. É de se imaginar que algum governante temeroso de que lhe pregassem um tomate às ventas, mandasse o Legislativo escrevinhar artigo com capítulo inciso e parágrafo, legislando em causa própria. Faz bem o estilo.
BEM AO ESTILO
A Câmara Municipal de Curitiba, tão fagueira em títulos e nomes de ruas, produziu há dez anos um projeto, cujo objetivo era ampliar as marquises na cidade. Fosse a canetada bem-sucedida, e todo edifício da cidade, comercial ou residencial teria que ostentar uma marquise em estilo rococó ou borocoxô. Qualquer coisa assim. Não vingou.
OLHA A CHUVA
O propósito do autor do projeto, entretanto, era nobre. Com clima tão traiçoeiro, as marquises destinariam-se a evitar que o curitibano fosse pego desprevenido por aquele cumulonimbus que costuma esconder-se nalgum canto do horizonte.
O PINGO PINGA
Foi a vez das fábricas de guarda-chuva da China chiarem. Dos comerciantes também. Afinal, são eles quem encarregam os funcionários de abraçar os guarda-chuvas e sair à rua vendendo a granel, tão logo um pingo pingue.
CACHOS PRESERVADOS
As marquises, no entanto, seguem abençoadas. É possível, debaixo de uma daquelas chuvas de verão que atravessam todo o verão, caminhar duas ou três quadras, do trabalho ao ponto de ônibus, do ponto de ônibus à faculdade, sem molhar as melenas esticadas a ferro ou besuntadas de gel.
Só a marquise salva.
NO APAGAR DAS LUZES
Os moradores das localidades – a Muricy, a Salgado Filho, a XV, a Monsenhor Celso, a Pedro Ivo – embatucam com os mendigos que fazem das marquises o seu teto. Reclamam do cheiro, odor, dos panos e daquela montanha de cacarecos que os circundam. Ah, criaturas desprovidas de compaixão! Os lojistas sabem: eles, os esfarrapados, só pedem licença em horas noturnas, quando o comércio cerra as portas.
SEM CASA, SEM BANHEIRO
Uma lei aprovada pela Câmara de Vereadores obrigava o município a construir banheiros públicos nas praças para atender as urgências fisiológicas de cada um. Não vingou. Os mendigos são mendigos, ora ora, porque não têm casa. Banheiro, então, muito menos.
NÃO CAI NÃO
O rei gaulês Abracourcix, costuma bradar, no gibi famoso: “Só tenho medo de que o céu caia sobre minha cabeça. Certamente ele não inventou essa máxima pensando em uma marquise. O risco seria bem maior.
