
No espaço exíguo de quatro dias, a Gazeta do Povo abriu e fechou a portas do aplicativo “Monitor da Doutrinação” – cujo objetivo era vigiar e punir professores, alunos e funcionários de escolas e universidades que ousassem exercer o livre direito de opinião no ambiente dos estabelecimentos de ensino.
CONSTRANGIMENTO EDITORIAL
O alvo era a doutrinação ideológica, religiosa e a moral. Em matérias sem assinatura, o que em geral indica que são de responsabilidade da direção do jornal, a Gazeta lançou o aplicativo na quarta-feira (6) para encerrá-lo às 21h34 do domingo (10), tomada de nítido constrangimento editorial.
VOSSAS CONVICÇÕES
Trata-se de outra das grandes façanhas da Gazeta do Povo: assumir posições que pouco ou nada dizem respeito ao leitor.
A PALAVRA É ‘PERSONALIDADE’
Diz o artigo publicado no site no domingo: “A reação [de professores, advogados, empresários, jornalistas, etc.] nos levou a refletir se a ferramenta era condizente com o papel da comunicação, a finalidade editorial e a personalidade da Gazeta do Povo”.
MORAL INADEQUADA
Logo adiante, porém, o jornal insiste: “Por outro lado, não concordamos com situações de abuso. Elas existem e têm se tornado muito frequentes, tanto com a manifestação recorrente de opiniões de caráter partidário quanto com a exposição de temas moralmente inadequados”.
PROTOCOLOS
Não deixa de ser coincidência, portanto, que a Gazeta tenha publicado logo abaixo da matéria um link das “convicções do jornal”, já editada em papel na primeira edição da revista de fim de semana, em junho deste ano, e agora relembrada em versão digital. Em resumo, um catatau que foge aos princípios editoriais comumente adotados por publicações noticiosas.
NÃO DESAPEGOU
A Gazeta está tirando do ar o aplicativo “Monitor da Doutrinação”, o que não quer dizer que se desapegou daquilo que reza. “Entendemos, ainda, ser impossível que se prescinda totalmente do que se acredita. Nossos valores e visão de mundo são pano de fundo para nossos atos e manifestações. É algo inafastável da realidade humana. Naturalmente, vale também para docentes. Portanto, torna-se utópico querer que, em sala de aula, o professor apresente um conteúdo sem que isso seja influenciado por aquilo em que ele acredita”, diz a Gazeta no mea culpa.
A CULPA É DO JORNALISTA
Parece bonitinho. Mas vale dizer que há muito o jornal prescindiu do jornalismo. A ponto de, em reunião com a redação, um dos diretores ter discorrido longamente sobre o fracasso das escolas de comunicação, o que teria resultado, segundo ele, em uma insanável geração de maus jornalistas. Alguém levantou a mão para rebatê-lo. Lembrou-o que o mal não abatia apenas as faculdades de comunicação, mas também as de medicina, engenharia, economia, química, ciências sociais, filosofia, física e, last but not least, direito. Sim, o diretor de princípios resolutos é advogado.
