segunda-feira, 11 maio, 2026
HomeMemorialFESTA DO SENEGAL REVELA UMA SÓLIDA ELITE NEGRA EM CURITIBA

FESTA DO SENEGAL REVELA UMA SÓLIDA ELITE NEGRA EM CURITIBA

O cônsul do Senegal para o Paraná e Santa Catarina, Ozeil Moura dos Santos, com o deputado Cobra Reporter, colaborador nas comemorações dos 322 anos da morte de Zumbi do Palmares e Dia da Consciência Negra.
O cônsul do Senegal para o Paraná e Santa Catarina, Ozeil Moura dos Santos, com o deputado Cobra Reporter, colaborador nas comemorações dos 322 anos da morte de Zumbi do Palmares e Dia da Consciência Negra.

Quando, na tarde de 28, cheguei ao plenário da Assembleia Legislativa, às 19 horas, meia hora atrasado devido ao caos do trânsito, estava pronto para assistir apenas mais uma solenidade oficial, dentre as tantas que minha história registra.

Tinha, no entanto, uma vaga esperança – vaga -, de que ela poderia apresentar poucos lances interessantes, pois aquele encontro de diplomação de homenageados pelo Consulado Geral do Senegal para o Paraná e Santa Catarina iria comemorar o Dia da Consciência Negra. Esse poderia ser o diferencial, pensei comigo mesmo.

E foi.

Os diplomas seriam de reconhecimento à atuação comunitária de amigos do Consulado, muitos deles notáveis pelo papel que exercem em Curitiba.

Negros e brancos foram agraciados pelo cônsul Ozeil Moura dos Santos. Brasileiros e estrangeiros.

O que o Consulado do Senegal acabou me revelando é que já existe uma elite cultural negra em Curitiba, ocupando posições em empresas, em cargos públicos, e boa parte dela estudando em universidades. Quase todos dessa elite falando pelo menos três idiomas além do português.

ALTIVOS, CULTOS, BRILHANTES

Ozeil Moura dos Santos, o cônsul, me surpreendeu: o que ele me mostrou e ao público que acorreu à AL foi um desfile de homens e mulheres negros, altivos, cordiais, fraternais, exibindo o orgulho de sua etnia (prefiro o vocábulo ao incorreto raça).

Junto com muitos negros brilhantes e cheio de títulos que lá desfilaram, estávamos nós (eu, por exemplo), alguns descendentes dos pobres europeus alemães, italianos, poloneses, ucranianos, que, via de regra, começaram a chegar ao Brasil em porão de navio em meados do século 19.

Nisso (o porão de navio) nós, os brancos, nos irmanamos com os negros: pertencíamos, na nossa ancestralidade, à categoria dos ‘subpovos’ fornecedores de mão de obra barata (os brancos) e escrava (os negros).

Claro que não se compara o incomparável – os africanos chegaram e permaneceram escravos por séculos. Os brancos foram se ajeitando, com lutas, dificuldades, mas sem as dores, feridas, injustiças e barreiras gerados pela escravidão.

CONSCIÊNCIA NEGRA

O IBGE classifica os negros de pretos, simplesmente. Eu prefiro o termo negro, indicador até da consciência negra gerada no Brasil a partir de Zumbi, o grande herói daquele ato de terça, 28. Data da “imortalidade de Zumbi”, como proclama sempre Ozeil, que – justiça se lhe faça – ergueu em Curitiba o maior monumento do mundo ao herói de seu povo, libertário sem par.

Na cadeira ao meu lado, sentou-se uma jovem negra linda, pele lustrosa, cabelos ao natural, “orgulhosos” de identificar as raízes da humanidade, nascida na Mãe África. Muito bem vestida, mas em padrão ocidental.

Finíssima, a moça, na casa dos 20 anos, com criança no colo, deu-me a impressão de ser alguém dedicada ao “design” de moda. Depois, descobri que é economista e voltará em breve para sua Angola Natal.

ATELIER NO BATEL

Houve uma sucessão de surpresas quando, por exemplo, surgiu a angolana Soraya da Piedade, designer de modas, hoje dona de atelier no Batel. Ela “arrasou” – diriam os jovens – com seu vestido que não sei descrever.

Mas que impressiona pela composição visual impactante. Lembrou uma jovem vestida para dia de festa descontraída.

Uma referência especial a Ismael Oliveira, superintendente adjunto da Polícia Rodoviária Federal, acompanhado de familiares, duas mulheres, com seus vestidos estampados, cento por cento roupas típicas da África, com os competentes turbantes. As duas eram só alegria. Sabiam, deu-me a impressão, que eram uma das composições visuais mais apropriadas para o Dia da Consciência Negra.

SEGURANDO EMOÇÕES

O que fui vendo, na quietude de minhas observações de repórter, quase me levou ao choro (eu não sou de chorar): visualizei homens e mulheres com suas roupas afro, orgulhosos; quando Ozeil foi chamando os homenageados para a solenidade de diplomação, ao lado do deputado Cobra Repórter, o que comprovei é que esta Curitiba – outrora uma “cidade branca” – tem uma elite negra na dimensão que importa: é altamente qualificada; em parte dela não faltam doutorados acadêmicos.

Foi o que observei quando um deles, um homem na faixa dos 40, foi nominado como duas vezes doutor, com pós-doutorado, em Engenharia Ambiental e preservação do Meio Ambiente. E outros seguiram esse cortejo com titulações variadas, até internacionais. Foi o caso de jovens – homens e mulheres, de cinco países africanos – oriundos do Senegal, Angola, Moçambique… Acho que até ouvi alguém ser nominado como do Zimbábue (o som da AL ficou abaixo da crítica).

“NEGRA VELHA”

Ozeil discursou na medida. Só que foi mal-ouvido, prejudicado pelo péssimo sistema de som da Assembleia. Mesmo assim, não houve como não ficar conectado a ele e ao compositor e cantor Breno Sampaio (outro dos diplomados) que interpretou uma canção dolente, “Negra Velha”.

Para mim, velho cultor de um dos maiores expoentes da cultura francesa (e também senegalesa), a citação de Leopoldo Senghor me lembrou a dimensão enorme desse espírito invejável do “pai” do Senegal. E membro da poderosa Academie de France, o que não é pouca coisa…

Ozeil deu o toque final e definitivo no seu discurso ao garantir que “só a educação liberta”, para retomar ao significado de Senghor. E também ao reclamar as “bênçãos dos deuses de todas as crenças” a quem batalha pela Consciência Negra. O que disse, com clareza, começa pela invocação ao Deus da tradição judaico-cristã, “o Deus de Abrão, Isaac e Jacó”.

Antes da fala de Ozeil, ao se apresentar à plateia, o deputado Cobra Repórter, autor da proposta da homenagem a Zumbi, dissera: como católico é devoto de Nossa Senhora Aparecida, “uma invocação negra da mãe de Jesus, uma paixão brasileira”.

O cônsul Ozeil no discurso destacando a data comemorativa da morte de Zumbi dos Palmares.
O cônsul Ozeil no discurso destacando a data comemorativa da morte de Zumbi dos Palmares.
Grupo de homenageados pelo apoio dado às comunidades brasileira, paranaense, afrodescendente e africana.
Grupo de homenageados pelo apoio dado às comunidades brasileira, paranaense, afrodescendente e africana.
Duas homenageadas por serviços prestados às comunidades negras: a angolana Amanda Cristina dos Santos Kissua e a brasileira Tatiana Sopzak Campos.
Duas homenageadas por serviços prestados às comunidades negras: a angolana Amanda Cristina dos Santos Kissua e a brasileira Tatiana Sopzak Campos.
Auditório que prestigiou o evento.
Auditório que prestigiou o evento.
Auditório que prestigiou o evento.
Auditório que prestigiou o evento.
Leia Também

Leia Também