
Há um episódio de “Black Mirror”, série da Netflix, que se revela premonitório. Os habitantes de uma cidade são regulados por avaliações de um aplicativo. A atendente de um mercado avalia a sua cliente e vice-versa. A nota, desde que mantida na média social, garante a preferência nas reservas de passagem aérea e reservas em restaurantes, entre outros benefícios. Do contrário, o cidadão torna-se um pária. É um mundo imaginário no qual ninguém conseguiria viver. Mas estamos à beira disso.
HERESIA
Prova disso é o poder exercido pela youtuber Ana Paula Xongani ao conseguir retirar de circulação o livro infanto-juvenil “Peppa” de autoria de Silvana Rando, tachado de racista. Observe: ela considerou-o racista. A imagem em que Xongani aparece vociferando contra a obra tem ao fundo diversos outros livros voltados às crianças, o que significa que ela está a organizar um índex bem aos moldes do que fazia o Santo Ofício da Igreja ao vetar escritos classificados como heréticos.
BRANCA DO CABELO DURO
Peppa não é a porquinha do desenho animado, mas uma menina branca de cabelos negros longos e duros. Silvana Rando que já publicou mais de duas dezenas de livros e foi premiada com o Jabuti quis falar de igualdade, mas acabou esbarrando na intolerância. Pior: no ativismo da intolerância. “Peppa”, publicado em 2009 pela Brinque-Book, foi adotado pelas escolas. Agora, em decisão conjunta da autora e da editora, sai de circulação. É difícil crer que Xongani se sinta uma vencedora ao conseguir retirar o livro das prateleiras, mas o alerta é significativo.
Os novos tempos desenham-se como os piores tempos.

