
O senador Alvaro Dias (Podemos-PR) estava certo. Ao saber em uma entrevista para o livro “Encontros do Araguaia – Paranaenses que fizeram o século XX”, previsto para o ano que vem, que estava sendo colocado ao lado de não-políticos nas sondagens de intenção de voto para a presidência, refutou a ideia. “Por favor, tenho pedido aos institutos de pesquisa que não me alinhem aos aventureiros. Sou um político de carreira e não me envergonho”.
CELEBRIDADES INSTANTÂNEAS
Menos de um ano depois, os aventureiros citados pelo senador começam a abandonar o barco. Alvaro não é avesso à renovação. Muito pelo contrário. Mas não pelo caminho das celebridades instantâneas ou dos programas vespertinos. Claro que a referência mais significativa dessa “nova safra” de vida curta é o prefeito de São Paulo, João Doria. Nem bem havia se abancado na cadeira que Jânio Quadros, três décadas antes, higienizara com álcool, Doria passou a rodar o país em campanha indisfarçada.
NÃO POUPOU NINGUÉM
Apresentou-se primeiro como o anti-Lula desferindo golpes no petista, em militantes e correligionários. Depois mirou no próprio partido, atacando quadros respeitáveis do PSDB como o vice-presidente nacional da sigla Alberto Goldmann. Não foi um ataque qualquer. Ele gravou várias vezes um vídeo que circulou na internet até encontrar o tom certo na ofensa que desferia. Chamou Goldmann de “fracassado”. Foi o que bastou.
EMPAREDADO
Outro que se apresentava como postulante à presidência era o apresentador Luciano Huck. Um candidato que não mostrava sua cara, porque não admitia que, de fato, era um deles, ainda que deixasse vazar informações de que se reunia com líderes de partido e empresários. Só descartou a ideia quando a direção da Rede Globo emparedou-o, cobrando uma decisão. Ele decidiu: fica onde está, animando o auditório nas tardes de sábado. Há outros surgindo na linha do horizonte. Todos, porém, risíveis: Dr. Hollywood, Valéria Monteiro, Roberto Justus.
SILVIO SANTOS VEM AÍ
Na campanha à presidência, em 1989, o apresentador Silvio Santos surgiu como candidato em uma muito suspeita desistência de um nanico. Como o primeiro turno já avançava, a Justiça Eleitoral entendeu cassar sua candidatura.
A SOMBRA DE DONALD TRUMP
Claro, qualquer um pode concorrer à presidência, desde que atendidos os requisitos estabelecidos na Constituição. A onda de não-políticos, no entanto, contém uma explicação. Primeiro, a desconfiança em altos níveis dos brasileiros em relação à categoria. Segundo, a ascensão de não-políticos em democracias em que essa possibilidade não existia. Caso de Donald Trump. Apesar de filiado ao partido Republicano, Trump nunca se candidatou. Ensaiou, certa vez, uma disputa ao Senado, mas não levou adiante. Quando decidiu concorrer quis logo a Casa Branca. E venceu. O problema é que ele deixou de ser não-político já em sua posse. E sua política, dúbia, conservadora, atrapalhada, reacionária, tem deixado os povos do mundo democrático de cabelo em pé. Foi um sinal de alerta para os eleitores brasileiros que acreditavam que um “gestor” ou um “animador de auditório” bastava para endireitar o país.
