segunda-feira, 11 maio, 2026
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GLADIMIR DIZ QUE NÃO USARIA GRAVAÇÕES CLANDESTINAS

Gladimir Nascimento: uma carreira irrepreensível
Gladimir Nascimento: uma carreira irrepreensível

Um dos blogs mais combativos, à esquerda da política tradicional, o Diário do Centro do Mundo publicou, com destaque, que um dia o jornalista Gladimir Nascimento, de Curitiba, teria tido em mãos gravações comprometedoras sobre o juiz Sergio Moro, da Décima Terceira Vara Federal da Capital.

Sem esconder discordância profunda com o magistrado, Gladimir lembra-se de depoimento que prestou a ele. Foi tenso, diz, como tantos outros que ao longo de 30 anos de carreira teve de conceder em juízo.

Em carta que me enviou, Gladimir – um dos melhores quadros que o jornalismo paranaense produziu, especialmente no ramo investigativo – introduz o leitor ao assunto. E, em seguida, detalha aspectos do controverso assunto (veja links das matérias), e reproduz correspondência que enviou ao diretor do Diário do Centro do Mundo.

Leia:

ASSIM TUDO COMEÇOU

“Prezado Professor Aroldo,

Conforme relatei ao telefone, o episódio que envolveu a mim e ao juiz Sérgio Moro foi decorrência banal de uma reportagem. Somente devido à controversa celebridade do juiz é que o caso foi relembrado, com a tese levantada pelo Diário do Centro do Mundo, de que tive em minhas mãos gravações comprometedoras contra o magistrado e que, supostamente por pressões políticas, decidi não publicá-las. Desconheço tais gravações, como relatei no e-mail que reproduzo abaixo e que o DCM, decentemente, publicou na íntegra, embora eu não o houvesse solicitado.

DESPROPORCIONAL

Considero o alvoroço desproporcional, porém fácil de compreender. Surge dos intestinos.

O capitalismo brasileiro, em crise de abstinência da exploração sem qualquer limite ou humanidade, novamente expõe sem disfarce seu DNA bandeirante. A seu serviço dispõe de jovens e letrados capitães-do-mato, dispostos à manutenção do servilismo, protegidos por tosca burrice cívica.

Sergio Moro: caso Bertholdo?
Sergio Moro: caso Bertholdo?

MP E JUDICIÁRIO

Os infelizes ‘mandingos’, antes recrutados na classe média militar, hoje se voluntariam principalmente no Ministério Público e no Judiciário. A repulsa que nos provocam é mais que política, pois nasce em nossas vísceras. Daí o alvoroço. Quem tem alguma noção de Ética e Direito está se contorcendo em cólicas.

“BUGREIROS”

Como o Sr., Gostaria de dar aos ‘bugreiros’ o que merecem, mas sempre que essa raiva ressurge lembro de um velho conhecido nosso, o jesuíta catarinense Raimundo Kroth, que em sua sabedoria ensinava: nas crises, o essencial é conservar o discernimento. Assim, tento seguir o velho padre, amigo muito querido, e recuperar a serenidade.

Reproduzo abaixo o e-mail enviado ao jornalista Joaquim de Carvalho, do DCM:

“HOJE SOU UM OLEIRO”

Prezado Joaquim,

Minha profissão (atual) é a de oleiro, mas por quase 30 anos foi a de jornalista. Embora não tenha sido procurado na apuração, apresento-me para oferecer esclarecimentos, já que duas vezes você mencionou meu nome em textos que produziu, referindo-se ao tempo em que meu trabalho era checar e divulgar informações. A mais recente está neste link:

https://jornalggn.com.br/noticia/exclusivo-moro-e-a-origem-de-um-novo-direito-penal-por-joaquim-de-carvalho

CINCO MIL MATÉRIAS

Calculo que no exercício do Jornalismo produzi cerca de 5 mil matérias, em rádio, TV, jornal, revista e Internet, porém, por desapego, não guardo cópia de nenhuma delas. Não tenho arquivos. Isso traz a vantagem de não me deixar preso ao passado, nem permitir que alguma fantasia de vaidade me faça imaginar que tenham importância, mas, reconheço, dificulta a recuperação de detalhes que o tempo pode tornar relevantes.

CASO BERTHOLDO

Lembro-me do episódio Bertholdo. Foi uma reportagem excelente da colega Denise Mello. Na época, provocou certa comoção política na nossa província que pensa ser República. Lembro-me também de que fui ao gabinete do juiz Moro, não sei se intimado ou por iniciativa minha. Tive com ele conversa desconfortável, porém clara e franca, pois sentia-me seguro com o trabalho realizado por Denise, técnica e eticamente estruturado, e pude defendê-lo como me cabia.

Joel Malucelli: isento de culpa
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MOTIVO DO INCÔMODO?

Desgraçadamente, não me recordo de qual detalhe da matéria incomodou o juiz, que não tinha, na época, a notoriedade de hoje. Não foi episódio extraordinário, pois fui pressionado antes, como acredito que você também foi, por outros magistrados, promotores, policiais, empresários, políticos, enfim toda essa gente que o trabalho de jornalista contraria.

Coisa da profissão. Moro foi mais um, e como tal foi tratado.

Posso estar enganado, mas, pelo que consigo lembrar, a alegação do juiz dizia respeito ao conjunto do problema, não às gravações que você menciona. Por mais que me esforce, não me lembro dos tais CDs.

Porém, se as gravações existiam e estavam conosco, o mais provável, sim, é que eu tenha decidido não usá-las.

NO FIO DA NAVALHA

Digo isso com segurança, mesmo sem lembrar da suposta decisão, porque é o que eu faria mesmo hoje. No fio da navalha cotidiano, sempre procurei ser cuidadoso com a reputação das pessoas. Muitas vezes falhei nesse compromisso, e provoquei danos a muita gente, mas jamais o fiz com essa intenção, e sempre tentei me cercar de cuidados.

CONTRA CLANDESTINAS

Um deles é uma restrição bastante conservadora contra gravações clandestinas. Se os CDs existiam e faziam parte de um processo judicial, estavam sob guarda da Justiça e a ela caberia avaliar seu conteúdo, como, pelo que li em sua matéria, parece que ocorreu. Essa é a lógica que sempre procurei aplicar. Talvez seja uma lógica caduca, nesses tempos de vazamentos dirigidos. Nesse caso, fico feliz por ter caducado junto com ela e virado oleiro.

SEM APREÇO A MORO

Não alimento qualquer apreço ou admiração pelo juiz Moro. Um dos motivos é o fato de que ele parece não partilhar da minha restrição à divulgação de escutas telefônicas. Mas não estou aqui para julgá-lo. Nem ao Sr. Bertholdo. Nem à mídia.

PROCURANDO PRECISÃO

Quero somente contribuir para a precisão de sua apuração e dizer que não me lembro dessas gravações; não as publicaria se as tivesse obtido, pois, segundo seu relato, eram clandestinas; não protegi ou fui pressionado para proteger o juiz Moro, nem o ataquei ou fui pressionado a fazê-lo, e não me recordo de qualquer participação, nesse episódio, do empresário Joel Malucelli, como sugere seu primeiro texto. Joel foi meu patrão e temos diferenças graves, que se tornaram públicas, não tenho qualquer motivo para defendê-lo, mas seria desonesto deixar que lhe atribuam essa culpa, pois ele não a tem.

Desejo boa sorte ao jornalista.

Se precisar de outras informações, que não dependam de boa memória, por favor me procure.

Gladimir Nascimento.”

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