domingo, 10 maio, 2026
HomeMemorialELEIÇÕES 2018: PRÉ-CANDIDATA À PRESIDÊNCIA, VALÉRIA PREPARA BIOGRAFIA

ELEIÇÕES 2018: PRÉ-CANDIDATA À PRESIDÊNCIA, VALÉRIA PREPARA BIOGRAFIA

Valéria Monteiro
Valéria Monteiro

A jornalista Valéria Monteiro voltou à mídia de um modo inusitado. Na sexta-feira passada (22) ela usou um canal no Youtube para lançar sua pré-candidatura à presidência da República. Valéria não é política, nunca exerceu cargo público, mas se habilitou ao cargo em um grupo que vem crescendo no cenário nacional: o dos não-políticos. Dele fazem parte o apresentador Luciano Huck, o ex-técnico da seleção brasileira de vôlei masculino, Bernardo Rezende, e até mesmo o prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) que, apesar de ocupar cargo eletivo, declara-se um gestor, não um político. Não se trata de simples semântica. A palavra “político” cercou-se de tal demonismo que já fez com que a voz da caserna levantasse da tumba para amedrontar os incautos com a “A Volta dos Zumbis de Farda”, filme dirigido e protagonizado pelo general Hamilton Martins Mourão.

Valéria não tem partido. Não ainda. E talvez não tenha, caso o Supremo Tribunal Federal torne possível as candidaturas independentes. Uma democracia não deveria obrigar um candidato a cargo público, desde que observadas as regras básicas, a filiar-se a qualquer sigla para legitimar-se. Uma democracia não deveria também obrigar qualquer cidadão a votar. Trata-se de um direito, não um dever. Elementar, meu caro Watson, mas “eles”, os políticos, não pensam assim.

PRIMEIRA DAMA DO ‘JN’

Em mensagens trocadas com o colaborador desta coluna, Marcus Vinicius Gomes, Valéria diz que está preparando uma biografia. É o primeiro passo para sedimentar sua plataforma eleitoral e apresentar seus projetos.

Nada melhor, portanto, que a história de vida. Aos 27 anos, Valéria foi a primeira mulher a assumir a bancada do Jornal Nacional, em 1992. Até então, o telejornal da Globo era monopolizado por homens, a maioria ledores de teleprompter, distantes das decisões editoriais e da elaboração das reportagens. Valéria foi repórter da afiliada da Globo, em Campinas, onde também estudou, tornando-se depois apresentadora do RJTV, do Jornal Hoje e do Fantástico. Tudo isso em um espaço de apenas seis anos. Até chegar à bancada do principal jornal da casa.

Infelizmente, o brilho foi rápido e efêmero, como de uma estrela cadente. Ela narra isso de um modo que talvez ainda não tenha sido contado. Havia uma resistência ao seu nome. O círculo de maldades que se fechou contra ela incluía deixar sobre sua mesa matérias negativas sobre o seu trabalho no jornal. Ela resistiu na medida do possível, mas os mexericos atingiram questões pessoais. Por exemplo, os que criticavam sua promoção diziam que ela só atingira o topo da escala porque se casara, dois anos antes, com o diretor da emissora, Paulo Ubiratan, que morreria precocemente em 1998.

FOTOS NA PLAYBOY. SEM NUDES

Marcus Vinicius Gomes foi seu colega de universidade na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em meados dos anos 80. Ela já desfilava sua beleza e seus olhos amendoados pelo campus enquanto apresentava na TV Princesa, uma pequena emissora local, um programa vespertino em que, com apenas 20 anos, jogava charme para a câmera, sussurrava palavras e fazia beicinho. Era o que lhe exigiam.

Valéria foi modelo e atriz também, mas é o seu passado de jornalista que conta. A certa altura, em 1994, ela aceitou o convite da Playboy e deixou-se fotografar por J.R. Duran. Em dez páginas do ensaio não mostrou absolutamente nada. Fez caras e bocas, só. Um recorde digno do Guiness.

Quem visitar seu perfil no Facebook, verá uma jornalista sóbria. Ela certamente não quer os refletores em sua direção. Em 2015, voltou ao grupo dos Marinhos para apresentar um programa no canal Viva. Entrou, trabalhou, saiu.

ALOHA, MARCUS!

Até sexta-feira da semana passada seguia a vida tocando uma produtora independente chamada “Toda América” em Campinas. O anúncio da pré-candidatura a devolveu à cena, desta vez no palco de nossa surrada política. O que Valéria disse ao jornalista:

“Desde a postagem, na última sexta-feira, tenho recebido muito apoio, demanda para entrevistas e alguns contatos de representantes partidários. Estou trabalhando para organizar tudo na agenda e atender a todos. Você tem razão, minha parte da história ‘passou discreta’. Estou escrevendo uma biografia. Aloha!”

A ONIPOTÊNCIA DO GUARDA DA ESQUINA

Talvez seja necessário aqui contextualizar a história de Valéria Monteiro e Marcus Vinicius Gomes. Ambos viveram o regime militar na adolescência. Não eram os anos de chumbo, mas certamente eram anos em que se temia o guarda da esquina por sua onipotência. Ele podia tudo de fato. Inclusive decidir sobre aqueles que deveriam viver ou morrer. O Estado interferia nos costumes, interferia na cultura, interferia no que podia ou não ser noticiado e até no que poderia ser comido ou bebido.

Havia um mamute estatal tão grande que até mesmo uma fábrica de botões era controlada por um órgão público.

A geração de Valéria Monteiro tomou o barco contrário, certamente. O jornalismo ganhou feições que hoje se traduzem na função de comando dos profissionais de imprensa em jornais e telejornais – o que era raro.

Antes, era um burocrata quem comandava a pauta e um leitor de laudas quem as irradiava. A voz empostada (e empolada) era o que lhe bastava.

VIDA PÚBLICA ALHEIA

O erro de Valéria foi destacar-se cedo demais. Patrícia Poeta, que teve trajetória profissional semelhante, não padeceu dessas mazelas. Valéria era um personagem novo em um momento novo do jornalismo. Cid Moreira havia deixado a bancada recentemente. Ou não deixara. Ainda lhe reservavam alguns minutos para que fosse a “voz do dono” de editoriais falados.

O colaborador deste espaço, Marcus Vinicius Gomes, fez carreira no impresso. Saltou de Campinas para São Paulo e de São Paulo para Curitiba com um lema que parafraseava Euclides da Cunha: “O jornalista é antes de tudo, um generalista”.

Em sua segunda incursão pelo “Jornal do Estado”, um diário de pequena tiragem, reinventou-se como colunista político. Foram longos e cansativos quatro anos de colunas diárias e de embates com o homem público porque, sim, o colunista falava mal da vida pública alheia.

Ainda assim reavivou nos donos de cargos públicos o esporte do processo judicial.

PERGUNTA DE MÁRCIO

Valéria sofreu suas agruras. Agora surge novamente pronta para atrair para si a aprovação e também a rejeição que já viu nos corredores da Globo ou em um recorte de jornal propositadamente deixado sobre sua mesa. Marcus Vinicius Gomes viu outra coisa. Os processos, ora, são da profissão. Márcio Renato dos Santos que pleiteia uma cadeira na Academia Paranaense de Letras indagou-lhe se tinha pretensões literárias. Claro que sim. Um jornalista é, antes de tudo, um escritor. Márcio via em suas colunas um estilo literário peculiar. Pois era intencional. Uma tentativa de burilar o texto de uma forma não convencional e tratar de temas com certo sarcasmo ou ironia. O distanciamento também era visível.

Diferente daqueles que encenavam o “Arlequim” de Goldoni, ele recusava-se a estender o tapete vermelho para quem quer que seja. Sim, havia restrições, mas elas eram tratadas sob a seguinte regra: não fale mal, não fale bem. Era melhor do que tecer loas como um bobo de antessala, um bobo posto a nu e, assim mesmo, privado de vergonha.

Marcus não faria. Valéria Monteiro, a Playboy (não) mostrou, jamais fez.

Leia Também

Leia Também