
A notícia nem foi assim tão surpreendente, mas diz muito sobre nosso tempo. O Google, a empresa que adora exibir seu jeito despojado com cara de universidade, demitiu um engenheiro cuja ousadia foi expor, em memorando, a desigualdade biológica entre homens e mulheres.
James Damore não é qualquer um. Ele estava prestes a concluir um doutorado em biologia matemática em Harvard, quando foi descoberto por um caça-talentos da empresa, em 2013. Desde então, viveu um inferno pessoal. Introspectivo, ele diz que o ambiente “ultra progressista” do Google chega a ser sufocante. Pessoas com ideias diferentes são constrangidas ao silêncio e policiadas por um grupo denominado “guerreiros da justiça social” que, apesar de ser uma minoria, afina-se com a política de diversidade de gênero da empresa.
SEM PARTICULARIDADES
A tese de Damore é simples. Tão simples que chega a ser banal. E se apega a um fato biológico incontestável: homens e mulheres têm interesses diferentes. “As mulheres são ligadas a pessoas, homens são ligados a coisas. Não se trata de um estereótipo, mas de uma condição inata”. O Google, contudo, tem horror a tal conceito, ainda que possa ser equivocado. Prefere trabalhar com a premissa de que, independente do gênero, é possível chegar a um patamar de 50% de engenheiros homens e 50% de mulheres na empresa, negando as particularidades de um e de outro. Particularidades não devem existir.
TUDO EXPLODIU
O erro de Damore foi escrever um memorando interno contestando essa ideia. No primeiro momento, não houve retorno. Então ele resolveu distribuí-lo para um grupo de mil pessoas. E tudo explodiu. O engenheiro, que foi demitido pessoalmente pelo CEO da empresa, traduz a era Trump. Diz que, diante do mundo ultra progressista, os conservadores são vistos como maus e burros. “É preciso ficar no armário e disfarçar quem você é. De muitas maneiras, é como ser gay nos anos 1950”, afirma.
Parece a repetição de um filme que você já viu. “Mississipi em Chamas”, por exemplo. Só que com valores invertidos. O pecadilho de Damore foi espalhar um e-mail com suas próprias ideias. Ele diz que fez isso porque participava de um grupo que analisava justamente a diversidade no trabalho. Mas não só a diversidade de gênero. Também a diversidade de pensamento, o que é absolutamente incompatível com a cultura do politicamente correto do Google.
PATRULHAS DO PENSAMENTO
Não é difícil imaginar por que as patrulhas do pensamento dominam ambientes das empresas de internet. Talvez porque este ambiente seja também o das redes sociais, onde qualquer “desvio social ou intelectual” é severamente punido. Damore, que se diz um liberal de centro, foi chamado de nazista, sexista e, óbvio, trumpista. E não é nada disso.
LÊ-SE “GOOLAG”
Darwin veria nisso um grande tubo de ensaio experimental. O Google achou melhor demitir o engenheiro e imprimir nele a marca de “conservador”. Mas não sufocou sua criatividade. Na camiseta ele embaralhou as letras do Google e escreveu: “Goolag”. Perfeito.
