quinta-feira, 22 outubro, 2026
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Cara-de-Barro: Surpreende, mas nos faz desviar o olhar

Por Eliaquim Junior –  O que pode ser mais cruel para um ator do que perder o próprio rosto? Em Cara-de-Barro (2026), novo filme da DC Studios, a pergunta ganha contornos grotescos, entre deformações corporais que desafiam o nosso olhar e uma reflexão (não muito aprofundada) sobre a tirania da beleza. Há poesia nessa contradição: um filme que nos faz querer fechar os olhos diante do horror, mas que, ao mesmo tempo, nos obriga a pensar justamente na imagem, naquilo que mostramos ao mundo, que escondemos e no valor que atribuímos à superfície. Afinal, quando o rosto é também instrumento de trabalho, até que ponto é possível separar aparência, identidade e sobrevivência?

Elisabeth Sparkle saberia responder a essa pergunta? Dois anos atrás, conhecíamos a Sra. Sparkle em outro body horror, A Substância, personagem vivida por Demi Moore. Esse sucesso indicado a Oscars tem muito a ver com o novo Cara-de-Barro, ambos tratam o corpo como instrumento de trabalho e nos fazem desviar o olhar de corpos que consideramos repulsivos ao mesmo tempo em que criticam uma sociedade que supervaloriza e decide quais tipos de corpo devemos concentrar o nosso olhar.

Matt Hagen está no cenário oposto àquele em que se encontra Elisabeth. É um astro em ascensão e que recebe sua primeira indicação ao Oscar. Porém, numa fatídica noite, depois de se envolver com a garota errada, ele tem seu rosto cortado de forma brutal, o que representa para ele o fim da carreira como ator. Mas logo ele esbarra numa médica que devolverá a ele os holofotes e a admiração da sociedade, porém, as consequências dessa medicina experimental são devastadoras.

A partir de então, o conceito de “interpretar um papel” passa a ganhar novas nuances, pois Hagen aprende a assumir a aparência de outras pessoas. E falando de interpretação, Tom Rhys Harries (Magnatas do Crime) brilha como o herói/anti-herói do filme, seu rosto tem uma expressividade imensa, demonstrando as emoções de forma magnética, e olha que não é um papel fácil (se é se existe algum…), mas Harries dá conta de todos os momentos, demonstra carisma e desespero sempre em “alta definição”.

A interação com a Dra. Caitlyn (Naomi Ackie) exala química e afeto sem se esforçarem muito; já o vilão Marko Szabo (David Dencik) é qualquer coisa, um mafioso genérico de Gotham, mas tudo bem, ele é apenas um contraponto, sua existência serve apenas para que Hagen amadureça e se desenvolva como pessoa (ou como monstro?).

Cara-de-Barro é dirigido por James Watkins, que tem no currículo o bom Não Fale o Mal (de 2024), e ele acerta bastante, principalmente nas cenas agonizantes em que o “horror corporal” realmente acontece. A sequência em que a pele começa a fechar os olhos de Hagen é uma das mais marcantes e aflitivas do cinema neste ano.

A trama começa em ritmo ágil, mas perde fôlego no segundo ato. Não que isso seja um problema: há um esforço evidente para desenvolver o lado humano do protagonista e sua relação com a doutora. O preço dessa escolha, porém, é reduzir o tempo de tela do Cara-de-Barro, cuja presença acaba se tornando mais escassa e, por vezes, apressada. E o desfecho? Ah, esse consegue nos enganar mais de uma vez. Lembram quando Spielberg se empolgou com os finais de A.I. – Inteligência Artificial (2001) e parecia não querer se despedir da própria história? Pois é…

Apesar dessas ressalvas, Cara-de-Barro é um acerto da DC e uma grata surpresa cinematográfica em 2026. Entre deformações perturbadoras e dilemas humanos, o filme prova que, às vezes, o horror não está apenas naquilo que vemos na tela, ele está também naquilo que somos obrigados a olhar.

⭐ NOTA 8/10 ⭐

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.

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