terça-feira, 20 outubro, 2026
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Eloi Zanetti: O último bom lugar

eloizanetti@gmail.com – Hemingway, em um dos seus contos, relata o dia a dia de um menino que morava em um campo madeireiro e descreve o lugar onde ia se refugiar, matar o tempo e observar as trutas como “o último bom lugar“. Para quem gosta de detalhes, esse lugar chama-se Rio Fox e fica no estado de Michigan.

Hoje vou contar qual é, na minha opinião, o meu último bom lugar. Ele faz parte das minhas recomendações de passeios para quem quer encontrar bons programas e restaurantes fora de Curitiba. Trata-se da Vila da Glória, localizada na Baía de Babitonga, em São Francisco do Sul, no lado do continente — bem onde terminam as praias do Paraná, na direção sul.

Quatro caminhos levam a este paraíso

Vamos aprender como se chega a esse belo e bucólico lugar. Assim como todos os caminhos levam a Roma, diferentes caminhos nos levam à Vila da Glória.

Você pode descer por Joinville e, na entrada da rodovia Dona Francisca, entrar à esquerda e procurar o caminho do aeroporto. Passe por trás dele e você chegará à praia do Vigorelli — ponto de saída do ferry boat. Atravesse o canal e, após mais 12 quilômetros em estrada asfaltada e estará entrando na Vila da Glória.

Há um segundo caminho que eu só recomendo para quem gosta de aventuras off-road. É ideal para jipeiros, pilotos de rali e para a turma das motos trail. Você vai por uma estrada de terra que atravessa um trecho de Mata Atlântica: desça pela estrada de Joinville, pegue a estrada de Garuva, entre no km 6 e vá seguindo as placas do ferry boat até o Estaleiro. São 28 km.

Já estando em Joinville ou São Francisco, você poderá atravessar a baía por um outro ferry boat, o que sai de Laranjeiras. A viagem é calma e modorrenta, mas a belíssima paisagem — tendo como fundo os contrafortes da Serra do Mar, as dezenas de ilhotas e suas praias — compensa o sacrifício da demora. É melhor se informar antes se a travessia está sendo realizada. Na última vez que estive lá, falava-se em desativar essa linha, o que é uma pena para o turismo local. Afinal, um ótimo programa é ficar na Vila da Glória e ir a São Francisco curtir o Museu do Mar, seus casarios antigos e as suas praias.

Há outro caminho mais fácil, porém mais longo: siga pela estrada de Garuva até o fim e entre à direita em direção à praia de Itapoá. Siga em frente e, quando você menos esperar, chegou. E chega bem, pois a primeira recomendação está logo na entrada da vila. É a Pousada da Fábrica, uma antiga fábrica de conservas de palmito e camarão que foi restaurada e hoje é uma simpática pousada. O local tem um jardinzinho repousante, boa comida e o mar batendo manso na porta do quarto. No vilarejo existem várias outras pousadas, algumas em pontos estratégicos, que oferecem apartamentos com vista para a baía.

Comida boa, belas paisagens e muita história

Um dos lugares mais alegres da enseada é a Petiscaria do Elias, que serve frutos do mar honestos em fartas e generosas porções. O destaque vai para as ostras servidas cruas, ao bafo ou à milanesa, e para os mariscos cultivados no local. Caso passe por lá durante a noite e encontre a porta fechada, não hesite em bater. A hospitalidade dos proprietários garante um bom atendimento mesmo fora de hora.

O restaurante do Jaci-Zinho é conhecido por sua rodada de camarões e frutos do mar. Do lado do mar, um deck avança para a baía, onde barcos ancoram trazendo seus tripulantes para o almoço. Experimente o pão feito em casa. As porções são generosas e o atendimento é de uma simpatia ímpar.

Espiritismo e homeopatia – este lugar tem história

Entre as várias colônias utópicas no Novo Mundo, a Península do Saí recebeu, a partir de 1841, o Falanstério do Saí, idealizado pelo médico francês Dr. Benoît Jules Mure. Entre esses colonos de formação intelectual — inspirados pelo socialismo utópico de Charles Fourier — estava o francês Léon Ledoux. Essa onda idealista também geraria, anos mais tarde, a Colônia Teresa Cristina do Dr. Faivre (1847) no Vale do Ivaí, e, no fim do século, a experiência anarquista da Colônia Cecília (1890), ambas no Paraná.

Conversando com uma senhora descendente da família de Léon Ledoux, descobri que as histórias familiares preservaram memórias de manifestações mediúnicas marcantes na região. Embora o Dr. Mure seja considerado um precursor do movimento por ligar o fourierismo e a introdução da homeopatia ao progresso espiritual, a correspondência ativa de pioneiros brasileiros com Allan Kardec e o envio de relatos sobre esses fenômenos locais ocorreram décadas mais tarde, integrando a expansão do movimento espírita no Brasil após a publicação de O Livro dos Espíritos (1857) na França.

Mais informações sobre essas Colonias

  • O livro Fourier: Utopia e Esperança na Península do Saí – de Raquel S. Thiago – Editora da FURB – UFSC
  • Retrato no Entardecer de Agosto – de Luiz Manfredini – sobre a Colônia do Dr. Faivre – editora Ypê Amarelo

Eloi Zanetti é escritor, palestrante, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com

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