Por Eliaquim Junior – Das redes sociais para os cinemas. Os perrengues e dilemas de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli chegam às telonas e garantem risos, reflexões e, claro, mais risos. Minha Melhor Amiga (2026) é aquele filme que entrega exatamente o que promete: quem comprar o ingresso dificilmente será surpreendido, mas sairá da sessão com um sorriso no rosto, a alma leve e uma vontade incontrolável de pesquisar passagens para Portugal.
Depois de mandarem as filhas para um intercâmbio em Portugal, Júlia (Mônica) e Clara (Ingrid), ambas na casa dos 50, precisam descobrir o que fazer com aquele pequeno detalhe chamado “vida própria”. Júlia é uma jornalista que começa a ser deixada de lado por uma profissional mais jovem, enquanto Clara está presa em uma rotina sem graça e num casamento tedioso. Nada mais apropriado, portanto, do que arrumar as malas e embarcar em uma aventura em Lisboa, porque eu acredito que uma passagem internacional é sim o tratamento recomendado para qualquer crise existencial (especialmente a da meia-idade).
A gente ri enquanto as protagonistas buscam autoconhecimento e discutem maternidade, idade, amizade, sexo, relacionamentos e medos: medo de ficar sozinha, medo de envelhecer, medo de envelhecer sozinha e medo de se apaixonar. O filme praticamente transforma a crise existencial em um checklist.
São temas profundos, mas tratados com muito bom humor pelo roteiro, que às vezes se empolga e parece acreditar estar escrevendo um livro de autoajuda com prazo de entrega. Algumas questões são apresentadas, discutidas e, quando você ainda está pensando sobre elas, já aparece uma conclusão pronta para facilitar a digestão. Afinal, nada como resolver em duas horas problemas que a vida real leva décadas para elaborar.
Felizmente, quando o roteiro ameaça ficar didático demais, Mônica e Ingrid entram em cena para lembrar por que estamos aqui. A química entre as duas é, indiscutivelmente, o grande trunfo do filme. E o fato de algumas cenas em que elas praticamente esquecem que estão interpretando permanecerem na versão final é menos um problema e mais uma prova de que, nesse caso, a amizade real é melhor do que qualquer roteiro.
Apesar dos problemas de ritmo, agravados por uma duração um pouco excessiva, Minha Melhor Amiga tem seus auges. A cena em que elas cantam “Tempo Perdido” pode emocionar; os perrengues em Sevilha são impagáveis e a subtrama do romance entre Júlia e um português até que cativa.
Mesmo com sua “cara” de programa de esquetes, Minha Melhor Amiga provoca risadas sinceras e termina deixando duas reflexões para levar para casa. A primeira é que envelhecer não significa perder oportunidades, viver menos, mas descobrir quem queremos levar conosco para a próxima fase. A segunda é que talvez uma amizade possa ser mais importante do que muitos relacionamentos amorosos.
No fim, a grande história de amor do filme não é um romance com um português charmoso, mas a amizade entre duas mulheres que descobriram que ainda têm muito para viver, de preferência juntas.
NOTA 7,5/10 

*Eliaquim Junior é cinéfilo e viciado em café (a ordem é discutível, o vício não). Escreve sobre filmes para justificar o tempo gasto assistindo a eles – e para reclamar com embasamento. Viu 125 filmes em 2025 e segue insatisfeito. Fã assumido de Spielberg e Hitchcock. Jornalista formado, e atua com edição e revisão de textos, mantendo vírgulas no lugar e expectativas altas no cinema.
