

Não consigo separar a imagem de Leomar Marchesini de dois elementos: a educação e a inclusão de estudantes especiais (deficientes de toda natureza) na vida universitária. Para mim, essas marcas são uma espécie de “segunda natureza” da psicóloga nascida para educar. É educadora por direito de nascença, o DNA do educar, instruir, ensinar está claramente inculcado nela.
Como psicóloga tem sido, antes de tudo, uma educadora, a vida toda. Isso começou quando criancinha, coisa de 5 a 6 anos de idade. Naqueles dias seu brinquedo favorito eram bonecas para as quais “dava aulas”.
Impossível imaginar vocação mais cedo explicitada. Cada boneca tinha nome. Dessa maneira, pelo nome elas eram chamadas pela “professora”, que ia para elas repetindo réstias de aulas recolhidas de crianças mais velhas.
A vida e obra de Leomar, e o decisivo apoio recebido do professor Wilson Picler, da Uninter, estarão no volume 9 do meu livro “Vozes do Paraná – retratos de paranaenses”. Lançamento dia 11, sexta-feira, das 19 às 22 horas, na Sociedade Garibaldi, Setor Histórico, Curitiba.
2 – ESCOLA DE BONECAS
Nos dias de decidir por um curso superior, Leomar, hoje 70, chegou a cogitar de entrar em Comunicação Social. Pensando melhor, e talvez um pouco influenciada pelo exemplo do pai, médico, então já falecido, e da mãe, professora, encaminhou-se mesmo foi para o Curso de Psicologia, que concluiria pela Universidade Tuiuti com todos os méritos acadêmicos.
Os personagens que influenciaram a história de vida de Leomar – de alguns tem lembranças remotas, como o pai, que cedo perdeu – estão todos nas mesmas sendas da psicóloga, de generoso atendimento do próximo.
O doutor Marchesini, por exemplo, jamais despediria quem o procurasse, mas não pudesse pagar pela consulta. Era uma vocação à São Francisco, sem exagero.
3 – NASCIMENTO, UM MODELO
Outro tipo inesquecível para ela foi o professor Osvaldo Nascimento. Os caminhos dos dois se cruzaram quando, a partir de 2005, Leomar passou a atuar ao lado do fundador do grupo Uninter, professor Wilson Picler.
Naqueles dias, Nascimento foi-lhe explicitando um sonho e requerendo sua participação: a criação do SIANEE (Serviço de Inclusão e Atendimento aos Alunos com Necessidades Educacionais Especiais), que o Centro Universitário Uninter deveria estabelecer; e assim passaria a cumprir a lei. Ao acatar a Lei Brasileira de Inclusão, de 2005, o pioneirismo da Uninter na área no país ficou definitivamente patente.
A multidão dos estudantes especiais que pedia (e pede cada vez mais) acesso a bancos universitários impressionou desde cedo Nascimento e Leomar. Eles transmitiram essa preocupação a Picler, alma sabidamente generosa e espiritualizada. A preocupação caiu em terra fértil.
Deficientes físicos, cegos, surdos, tetraplégicos – Leomar nunca rejeitou, a nenhum candidato com necessidades especiais, o direito de acesso ao estudo na Uninter. Para isso contaram, ela e Nascimento, com vários fatores, além da adesão quase incondicional de Picler.
– A distância entre o possível e o impossível é a medida da vontade do ser humano, costuma repetir Leomar, num mantra que bem a define.
4 – CALDEIRÃO DO HUCK
O SIANEE, dadas as peculiaridades de sua missão, acabou despertando até algum tipo de invídia dentro do grupo universitário. No entanto, o tempo acabou se encarregando de remover a “ciumeira” – quase por completo.
Fatores como a repercussão externa do trabalho singular, entre elas a sua acolhida pela grande mídia nacional (vide caso de Luciano Huck, da Globo, que apresentou o coral dos angolanos cegos alunos da Uninter), acabaram “canonizando” o SIANEE.
O que posso garantir é que esse projeto educativo de inclusão de alunos com necessidades especiais fez com que não poucas vezes Leomar partisse para campanhas de conquista até de cestas básicas. No caso, o alvo eram os angolanos cegos e carentes.
Foi uma das tantas iniciativas pessoais de Leomar que por vezes testemunhei, assim como sua luta para conseguir apoios no Governo do Estado e Polícia Federal para a permanência dos seus universitários angolanos que ficaram, de vez, desamparados pelo Governo de Angola. Sem falar nas muitas andanças em gabinetes do Ministério Público Estadual com o mesmo fim e na sensibilização de outras autoridades, como o ex-vice-governador Flávio Arns, nome notoriamente ligado à causa dos deficientes:
– Leomar encarna a educadora por excelência, a que sai do conforto de seus papers e do espaço acadêmico, e amplia sua missão no atender emergências dos alunos, situações que podem colocar em risco o próprio trabalho estudantil, opina o jornalista e Mestre em Comunicação e Política, Diego Antonelli, autor de livros sobre a História do Paraná.
