
Por José Oliva (*)
O detalhe é que não nasci em Curitiba. Fui, no entanto construindo a convicção e o sentimento de que sim a partir do momento em que, piá de quase 10 anos, descobri o violão e a música. Antes, era assim como um pote de geleia, sem forma, sem cor ou sabor. E fui ganhando olhos, nariz e ouvidos, à medida em que aprender, tocar e cantar foram afinando os sentidos. Entrar na Escolinha de Arte do Colégio Estadual do Paraná, arriscar piano, violão e experimentar bateria na Sala de Música da Professora Engina me fizeram sentir a sensação estranha de que já usava japona, gorro e ceroulas. Participar dos Festivais de Arte Colegial, fazer teatro, participando de “O Ônibus”, peça de Tonica Chagas, no Colégio Estadual, mexeu profundamente comigo. Já estava achando que até o sotaque andava diferêntE!
O CIRCO QUEIROLO
Assistir o Circo Queirolo, conhecer Fernando Montanari no programa Pingos do Saber, no Canal 6, na José Loureiro, onde fui tocar, acompanhando Mariane Brasil, Luciana e depois Kátia, do Colégio Estadual, ver Sinval Martins e seu personagem Barnabé, Ary Fontoura com o Dr. Pomposo, na televisão, comprar amendoim torradinho junto à escadaria da Foto Paraná, ao lado do Cachorro Quente, na Rua XV, aos domingos, depois da sessão do cine Avenida ou do Ópera, foram me fazendo suspeitar que eu era mesmo daqui. Mais ainda, ao assistir Ponto 6, gravado no auditório do Cine Vitória, na Barão do Rio Branco, com Dirceu Graeser, Maritza Fabiani e o nascente Metralhas, do Paulo Hilário e Alfreli Arruda Amaral. Eu já nem torcia pro Santos, como todos da minha geração. Tinha assumido que era atleticano.
PÓS GRADUAÇÃO EM CURITIBA
O tempo foi passando e dar de cara com os cartazes mambembes do grupo A Chave, de Orlando Azevedo, Ivo Rodrigues, Carlos Augusto Gaertner e Paulo Teixeira, colados nas paredes e postes e depois me surpreender com a originalidade deles tocando Beatles, Ivo, Paulo Leminski e tudo o mais, foi me dando convicção de que era mesmo feito de leite quente.
Reconhecer, depois, o bom astral de Celso Loch, o refinamento de Gebran Sabbag e a grandeza cheia de modéstia de Fernando Montanari, ler Jamil Snege, a poesia de Zeca Corrêa Leite, curtir Belarmino, Gabriela e Ivan Graciano, me reinventaram definitivamente.
Aí veio o choque de curitibanidade: participar de Cidade Sem Portas e cantar Chucrute e Abacaxi com Vinavuste de Paulo Vitola, mergulhando na alma curitibana de toda música que ele faz. Foi uma das duas aulas mais ricas da Pós-Graduação que fiz de Curitiba. A outra mais rica foi me reconhecer habitante dessa cidade desenhada por Jaime Lerner.
PESSOAS QUE SÃO MÚSICAS
O teatro de Oraci Gemba, a intensidade criativa do Luiz Rettamozo, o traço, o texto e o humor de Luiz Antonio Solda, que ninguém jamais revelou, mas é o verdadeiro pai de Paulo Leminski e mais Aramis Millarch contando tudo de nossa música, teatro e cinema, foram, a partir de então, completando minha formação. Um dia, entrou a comunicação em minha vida e com ela, Paulo Vítola de novo, o professor Aroldo Murá, Sergio S. Soares Reis, José Dionísio Rodrigues Adherbal Fortes e mais Lúcia Camargo, Tereza Urban, empresários como Walmor Santos e Francisco Simeão, artistas que são luzes de humanidade como Hélio Leites e Efigênia Ramos Rolim até o dia de acreditar, por intermédio de Sérgio Moro, daqui, que ainda dá para levantar a bandeira de que a justiça tem que ser igual para todos.
Eu, então, definitivamente curitibano
(*) JOSÉ ROBERTO OLIVA, publicitário, espírito criativo tempo integral

