quinta-feira, 21 maio, 2026
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Divã de Ideias: Amor primitivo

Por Fernando Simonetti – A humanidade sempre precisou criar novas estratégias de conexão com os outros. Quando faltou repertório, reciclou ou adaptou modelos do passado, numa engrenagem um pouco orgânica e um tanto produzida deliberadamente por todos nós.

Isso não é novidade e não nos assusta tem algum tempo. De uma forma sempre produzimos algo que reordenava as relações humanas, oxigenava os encontros e validava a importância do laço social.

Progressivamente, não só passamos a produzir poucas ideias como empobrecemos o pouco que criamos. Acomodados numa aposta um tanto ardilosa, sinto que delegamos ao acaso a totalidade dessa força criativa, embalados por nosso total esgotamento social.

Esquecemos que o acaso não equilibra essa balança porque o interesse final deveria ser nosso. E esse interesse também parece ter sido perdido.

A mais recente atualização disso tudo é que nossa própria inércia não nos incomoda mais. Cada nova geração parece receber uma dose de anestesia que reduz corpo, mente e alma à mais absoluta resignação produzindo, simultaneamente, uma ficção romantizada de solidão.

Normalizamos conhecer o mínimo possível de um outro alguém e não nos esforçamos para entregar muito mais de nós. Assim, quase sempre perdemos o melhor do outro e partimos para um novo encontro ainda mais drenados de expectativa.

De alguma forma, reduzimos o amor ao primitivo e recebemos um infeliz choque de realidade com algo da ordem do instinto, vaporizando quase que por completo as relações líquidas de Bauman.

Amar não é apostar no acaso. Pelo menos é o que o acaso tem nos mostrado.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.

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