Assessoria – O mês de maio carrega um propósito vital: o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. O “Maio Laranja” não é apenas uma data no calendário, mas um marco histórico que remete a 18 de maio de 1973, dia em que a menina Araceli Cabrera Crespo, de apenas oito anos, desapareceu ao voltar da escola em Vitória (ES). Seu corpo foi encontrado dias depois, com marcas de uma violência brutal que chocou o país. O crime, que permaneceu impune, tornou-se o símbolo nacional da luta pela garantia dos direitos infantojuvenis.
A violência em números: O retrato do Brasil
Dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2025, revelam um cenário de extrema vulnerabilidade. No Brasil, os registros de maus tratos contra crianças e adolescentes (0 a 17 anos) cresceram 8,1%, saltando de 31.146 em 2023 para 33.269 em 2024. No entanto, quando olhamos para o Paraná, o sinal de alerta é ainda mais crítico: o Estado registrou uma alta de 18,7% no mesmo período, índice que representa mais que o dobro da média nacional. Com 2.494 casos
reportados em 2024, o Paraná ocupa hoje a terceira posição no ranking absoluto de maus tratos no País.
Para romper com esses índices, o desafio vai além da segurança pública, passando pela educação da própria sociedade. Para Guilherme Wansaucheki, psicólogo do programa DEDICA, mantido pela Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas, é preciso desconstruir a cultura da palmada para preservar o desenvolvimento infantil. “Bater na criança para educar é uma ideia completamente deturpada. É como se o uso da força fizesse com que a criança compreendesse que fez algo errado.
O que esse ato ensina, na verdade, é que existe uma ação e que tal ação levou a uma consequência física de agressão”, explica o especialista.
A rede de proteção depende do olhar atento de todos. Guilherme Wansaucheki reforça que a dúvida não deve ser um impedimento para agir. “O Disque 100 é o início de uma investigação. Se você está com dúvida, denuncie. Já o 190, da Polícia Militar, deve ser acionado em situações emergenciais, quando o crime está acontecendo no momento”, orienta. Denunciar é o primeiro passo para retirar a criança de um ambiente de risco e interromper o ciclo de abusos.
Violência sexual: Silêncio e subnotificação

No recorte da exploração sexual o Paraná figura entre os dez estados com maiores números absolutos (40 registros em 2024). Embora tenha havido uma redução de 19,4% no estado, queda maior que os 7,9% da média brasileira, os números ainda reforçam a necessidade de vigilância constante e de um esforço coletivo para identificar casos que muitas vezes ocorrem dentro de casa.
A subnotificação da violência sexual na infância e adolescência foi o foco do levantamento “Percepções sobre Direitos de Meninas e Mulheres Grávidas Pós-Estupro”, realizado pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o Instituto Locomotiva. A pesquisa online, que ouviu 1,2 mil pessoas com mais de 16 anos em todo o Brasil, revelou que seis em cada dez mulheres que sofreram violência sexual antes dos 14 anos não contaram para ninguém sobre o ocorrido.
O desamparo se reflete na solidão dessas vítimas: apenas 27% das meninas confiaram em algum familiar após a agressão. Destas, apenas 15% foram levadas a uma delegacia e somente 9% receberam acolhimento e avaliação em uma unidade de saúde. A proximidade do problema no cotidiano dos brasileiros também ficou evidente no estudo: 60% dos entrevistados afirmaram conhecer uma criança ou adolescente menor de 14 anos que foi estuprada e 30% têm conhecimento de algum caso em que a vítima engravidou em decorrência da violência.
Esperança e cuidado: O Programa DEDICA
Iniciativas como a do programa DEDICA (Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), mantido pela Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas, desempenham um papel fundamental nesse acolhimento. O programa oferece atendimento interdisciplinar especializado e gratuito a vítimas de violências graves. Por meio do suporte psicológico, médico e social, o DEDICA busca não apenas tratar as feridas, mas reconstruir a dignidade e oferecer um novo horizonte para aqueles que tiveram sua infância violada.
