terça-feira, 28 abril, 2026
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Como formar leitores quando 53% dos brasileiros não leem

Assessoria – Enquanto as telas disputam, segundo a segundo, a atenção de crianças e adolescentes, os livros perdem espaço nas casas e nas rotinas brasileiras.  E os números comprovam: o levantamento mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revelou que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, uma queda de 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos.

No mês em que é comemorado o Dia Nacional do Livro Infantil e o Dia Mundial do Livro, a pergunta que ecoa entre especialistas em educação não é apenas “por que as crianças não leem mais”, mas o que escolas e famílias deixaram de fazer para que a leitura pudesse competir com o universo digital.

O cérebro sequestrado

A explicação para o afastamento dos livros passa, em parte, pela biologia. Um estudo do pesquisador Trevor Haynes, da Harvard Medical School, publicado em 2018, descreveu mecanismo por trás das telas: celulares e tablets acionam as mesmas áreas do cérebro ativadas por caça-níqueis e cocaína, o sistema de recompensa do cérebro, alimentado pela dopamina.

Do outro lado da balança, a leitura age de forma oposta: reduz os níveis de hormônios do estresse como adrenalina e cortisol, diminui a pressão arterial e desacelera a frequência cardíaca e respiratória. Mais do que entretenimento, ler é, literalmente, um ato de saúde.

Mas como convencer uma criança disso quando o celular vibra no bolso?

“A escola ainda trata a leitura como instrumento de avaliação”. Para André Ceruzi, diretor da Escola Willy Janz, em Curitiba e pai de sete filhos, com anos de experiência na formação de leitores, o problema tem raiz anterior à chegada das telas. “O erro principal não é a tela, é o que deixou de acontecer antes dela“, afirma.

Segundo ele, a escola segue tratando a leitura como ferramenta de avaliação: a criança lê para responder um questionário, não para se envolver com uma história. “Quando tem livre escolha, obviamente vai para o que dá prazer imediato”, analisa. Em casa, o cenário se repete de outra forma: o hábito de ler junto foi sendo progressivamente substituído pela tela como recurso de entretenimento para a criança.

A solução, para Ceruzi, está em simples hábitos. “Vinte minutos de leitura em voz alta antes de dormir podem fazer mais pela formação do leitor do que qualquer projeto escolar“, diz. “Não é culpa, é rotina. E a rotina se muda com decisão.”

A janela da infância

A estudante Ana Laura Guebert

Existe uma idade ideal para despertar o gosto pela leitura? Para o educador, a resposta surpreende: o gosto começa muito antes de a criança saber ler. “O cérebro leitor se forma na escuta, no encantamento, em experiências afetivas anteriores à alfabetização”, explica. Ouvir histórias no colo, folhear livros de imagens, inventar narrativas, tudo isso é pré-leitura. E os primeiros anos da infância são, na prática, os mais decisivos.

“É quando a criança ainda está aberta ao lúdico. Essa janela, uma vez fechada, exige uma abordagem completamente diferente para ser reaberta”, alerta Ceruzi. Com adolescentes, o caminho muda: “Liberdade de escolha total. Que ele leia o que quiser. O hábito vem primeiro.”

Quando a criança vira autora

A Escola Willy Janz  encontrou em uma atividade o antídoto prático para a passividade das telas. Com 30 anos de tradição no bairro Uberaba, em Curitiba, a instituição atende 450 crianças do ensino infantil e fundamental e, todos os anos, conduz um projeto que inverte a lógica e coloca as crianças para escreverem seus próprios livros.

A tarefa tem duração de três meses e, ao longo do processo, desenvolve nas crianças a criatividade, a expressão escrita, o vocabulário, a capacidade de estruturar narrativas e, sobretudo, uma relação afetiva com a palavra escrita e lida. No encerramento do ano letivo, um evento reúne os pequenos autores para uma sessão de autógrafos. Eles assinam suas obras, são aplaudidos pelos professores e celebrados pelas famílias.

Ana Laura Guebert, 10 anos, aluna do 5º ano da Willy Janz, assinou sua primeira obra em novembro do ano passado. Ela não esconde que a experiência começou com resistência. “No começo foi difícil, porque a gente sempre quer ficar no celular”, admite. “Mas quando eu comecei a inventar a história, fui gostando. E quando o livro ficou pronto e eu vi meu nome na capa, fiquei muito feliz.”

O projeto deixou mais do que uma lembrança. Ana Laura conta que a experiência a fez querer ler mais. “Agora eu fico curiosa para saber como os outros escritores fazem. Quero ler mais livros para ver como eles escrevem.”.

Um convite à leitura

A mensagem dos especialistas não é de culpa, mas de possibilidade. Formar leitores não exige projetos grandiosos nem a proibição das telas, exige presença, rotina e a escolha deliberada de colocar uma história no caminho de uma criança antes que o algoritmo o faça.

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