Por Eloi Zanetti (contato: eloizanetti@gmail.com) – Nova Petrópolis, Serra Gaúcha, 28 de dezembro de 1902: nasce o embrião da primeira cooperativa de crédito do país. As cooperativas de produção iriam nascer quatro anos depois. O padre jesuita suíço Theodore Amstad estava indignado com a situação de abandono dos colonos na região, todos ansiosos para plantar, mas sem capital para investir em sementes e equipamentos agrícolas. Como ele já conhecia o sistema cooperativista de crédito na Alemanha, começou a percorrer as colônias em lombo de mula perguntando:
“Você trouxe e ainda tem algum dinheiro quando veio da Alemanha?”
Foi somando os casos afirmativos e anotando os valores em um caderno do qual nunca se separou. Após o levantamento das informações, reuniu os interessados e propôs: “Vamos juntar tudo e formar uma cooperativa; assim teremos dinheiro para investir na lavoura”.
Estava formada a Caixa Rural de Nova Petrópolis que depois de muitos regulamentos e transformações virou hoje o Sistema Sicredi que conta com 10 milhões de associados, emprega 40 mil colaboradores diretos e está presente em 2,2 cidades com três mil postos de atendimento. Muitas dessas agências localizam-se em 200 municípios onde não existe nenhum outro banco, assim promovem acesso aos serviços financeiros às pessoas nas localidades menores e distantes dos grandes centros urbanos. Os bancos tradicionais fecharam em 2024 oitocentos agencias e no ano passado mais 938. Enquanto os bancos tradicionais exigem um limite mínimo de 8 mil habitantes para abrir uma agência, uma cooperativa de crédito abre a partir de 2,3 mil habitantes.
No sistema cooperativista, o cliente e o funcionário são donos do negócio e chamados de associados e, como tais, recebem os benefícios dos resultados financeiros, isto é a divisão das sobras – lucros – dos exercicios. A proximidade com os associados traz um diferencial importante na concessão de crédito, porque a cooperativa conhece melhor a realidade de cada um e pode aconselhar corretamente. É por isso que os pequenos e médios agricultores são os maiores associados do sistema cooperativista brasileiro: eles conhecem o gerente e são tratados como amigos.
O sistema foca em pequenos e médios agricultores e comerciantes, sendo o segundo maior financiador de crédito rural do país. Como o capital que recolhe em uma região fica girando na própria região, o sistema incrementa o PIB per capita dos municípios onde atua. Do total da carteira de crédito, R$141,6 bilhões vão para o agro-negócio, que inclui financiamento rural, compra de máquinas e equipamentos. Este setor cresceu 11,5% em 2025.
O Sistema fechou 2025 com R$ 455 bilhões em ativos – expansão de 14,6% -, tornando-se uma das 10 maiores instituições financeiras do país e encerrou o ano com o resultado líquido de R$ 7,5 bilhões – aumento líquido de 14% em relação a 2024.
O segredo desse sucesso é a governança bem feita e o princípio da solidariedade instituída pelo padre Theodor há 124 anos – uma agência dá suporte, fiscaliza e socorre a outra quando necessário. A segurança do associado está garantida. As decisões dos rumos de cada cooperativa são tomadas em reuniões anuais, onde todos os associados podem votar em um grande evento de prestação de contas.
Por causa disso, a abertura de um agência em um local longínquo não depende apenas de um estudo de viabilidade financeira – se há intenção da maioria e essa abertura não irá onerar os associados, ela é feita. No Brasil há 900 instituições financeiras na forma de cooperativas de crédito e a conta só tende a aumentar.

Eloi Zanetti é escritor, especialista em marketing e comunicação corporativa. Contato: eloizanetti@gmail.com
