Por Lucas Jensen – Bom, a primeira barreira da luta contra a procrastinação criativa já foi ultrapassada. Há quinze dias comecei esta coluna pelo começo. Ou pelo menos pelo começo que fazia sentido para mim. Não sei o porquê, mas algumas coisas parecem ter uma ordem certa, na minha cabeça. E hoje acredito que tudo começa pelo nome.
Desde pequeno eu gostava de nomear as coisas. Posso dizer que não sou um exímio nomeador, por amostragem. Meus animais experimentaram não só uma falta de criatividade nesse campo, mas também um apreço pelo clichê. Além de uma pequena obsessão por alguns nomes específicos.
Na infância tinha profunda adoração pelo neto de uma amiga da minha avó materna chamado Breno. Minha vó Naná, de vez em quando, subia até o andar do prédio em que morava para visitar a Dona Zuleika, exímia boleira e jogadora de bingo. Quando eu estava por lá, sempre arrumava um motivo para ir junto.
Foram necessários quatro peixes com fins trágicos, alguns bonecos e amigos imaginários (todos chamados Breno) para que eu me curasse do ímpeto de homenagear meu amigo dez anos mais velho que me ensinou a jogar videogame. Apesar de uma poodle toy chamada Fifi e um Golden chamado Thor, uma crença de que tudo deveria ter um nome que contasse uma história começou a crescer.
No mundo dos livros isso é mais do que verdade. Tome, por exemplo, Holden Caulfield. Em “O Apanhador no Campo de Centeio”, J. D. Salinger, escrevendo em língua inglesa, utiliza-se da similaridade entre “Holden” (nome), “Hold’em” (contração de hold them que significa “segurá-los”) e “Hold On” (segurar as pontas ou algo do gênero) para indicar um caractônimo, que nada mais é do que um nome que descreve as características de um personagem. Seu sobrenome pode ser dividido em “Caul” (um tipo de membrana que envolve a cabeça do feto ao nascer) e “Field” (se relaciona à metáfora central do livro).
Embora Salinger fosse recluso, é bem provável que a escolha tenha sido proposital. Quem lê, gosta e analisa seus livros, tem certeza dessa intencionalidade. Uma escolha meticulosa para nos dar uma prévia do que estaria por vir em uma das primeiras encarnações da adolescência na literatura.
Os escritores num geral adoram dar pequenas dicas e escolher nomes propícios para seus personagens. Esse determinismo nominativo em que as pessoas são subconscientemente atraídas para áreas de trabalho, estilos de vida e destinos que refletem os seus nomes é mais do que verdade na literatura. É arquitetura pura.
Temos infinitos casos para olhar. O projeto de sociopata Dorian Gray, de Oscar Wilde, traz em seu nome uma referência à perfeição grega antiga (Dórios) e a uma ambiguidade moral (gray/grey = cinza). Paul Atreides, de Duna, tem seu sobrenome ligado à linhagem trágica da Casa de Atreu na mitologia grega. Stephen Dedalus, de James Joyce, é uma referência direta ao mitológico Dédalo. Edmond Dantès, em “O Conde de Monte Cristo”, evoca o inferno pessoal da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Voldemort é a própria “fuga da morte” em francês. Entre muitos outros.
Porém, na literatura, a ausência de nome também é comum e também cheia de significado. Percebi isso depois de ficar abismado com a naturalidade que a sobrinha da minha esposa não dá nome a coisa alguma. Natália é como Dostoiévski em “Notas do Subterrâneo“, deixando desnomeadas as bonecas para que sejam espelho da queda da humanidade?

Outro que não nomeia a protagonista é Saramago, em “Ensaio Sobre a Cegueira“. Ali, entretanto, o maior dos Zés omite o nome de quase todos os personagens, relegando-os às suas descrições ou primeiras impressões, destacando a despersonalização causada pela epidemia.
E, não poderia deixar de mencionar o protagonista da “Trilogia do Rato“, de Haruki Murakami. Com uma motivação diferente dos exemplos que eu já trouxe, esse narrador em primeira pessoa sem nome se tornou quase que uma marca registrada do autor. Nas obras em japonês, ele se refere a si como “Boku”, que é uma forma mais jovial e casual de dizer “eu”. Em entrevistas, Murakami já confessou que, para ele, dar nome a um personagem é como colocar uma etiqueta de preço ou uma coleira.
Diferente de Saramago, Murakami utiliza dessa técnica como reforço da imagem de um homem comum, da apatia e melancolia, de alguém que flutua pela vida urbana japonesa. Um observador que é muito mais definido por seus gostos, pelas comidas que come, pelas músicas que ouve, pelas mulheres que se relaciona, pelo ofício que pratica.
Será que esse antagonismo entre eu e uma menina de cinco anos queria dizer alguma coisa? Estaria ela certa, junto de grandes como Saramago e Murakami? Ou eu e meu time de Salinger e Oscar Wilde?
Após ponderar sobre isso com uma xícara de café, decidi pelo empate técnico. Em nada teve a ver o meu lado contar com incapacidade fisica e reclusão, enquanto o outro conta com longevidade e fôlego de atleta. Dê-me uma colher de chá, Natália.
Assim, aprofundei-me e concluí que os nomes em livros têm influência de mão dupla nas nossas vidas. São tão determinados pela sociedade e momento histórico quanto os nomes de uma geração – ou de várias – são dominados por referências à literatura e à cultura num geral. Por isso, no Brasil e no ocidente como um todo, a predominância de nomes bíblicos (hebraicos, gregos ou latins) é inegável.
Assim como aqui, no Oriente Médio, o texto base da religião predominante (Alcorão) é a fonte absoluta dos nomes dos países de maioria muçulmana. Muhammad, Ahmed, Fatima, Ali, são comuns, bem como nomes teofóricos – derivados dos “99 Nomes de Alá”. A mesma coisa acontece na Índia e no Sudeste Asiático, onde a influência vem dos textos antigos dos Vedas e Puranas, além das epopeias como o Mahabharata. E, como não poderia ser diferente, países como Tailândia, Tibete e Vietnã se inspiram nos Cânones Budistas, com nomes que refletem conceitos de iluminação, paz e compaixão.
Na Ásia oriental a coisa é um pouco diferente. Na China e Japão, os pais costumam compor os nomes escolhendo caracteres com significados específicos de livros clássicos, focando no destino que desejam. A tradição de buscar esses nomes em textos é chamada de Cai Ming. Os Analectos de Confúcio, I Ching e poesias milenares são fontes históricas de nomes que expressam virtudes como lealdade, piedade e equilíbrio.
Isso tudo só serve para mostrar o quanto os nomes estão interligados na nossa vida, seja na identidade, destino, inclinação político-religiosa ou até como indicativo das nossas preferências, ocupações e afins. Muitos são incongruentes ou será que somos nós que vamos contra eles? Alguns podem ser um pouco demais ou exigir uma abstração maior. Mas nem tudo pode ser mamão com açúcar, né?
Então, da próxima vez que você for apresentado a um personagem, preste atenção ao nome dele. Porque nem todos serão tão escancaradamente descarados quanto Hiro Protagonist, o herói protagonista de Neal Stephenson em Snow Crash.
No fim, acho que tanto Breno (todos eles) quanto a Natália (e todas as suas bonecas sem nome) ficariam orgulhosos pelo tanto de besteira interessante que eu sou capaz de produzir.

Lucas Jensen é jornalista, publicitário e escritor, formou-se em 2019, mas trabalha com comunicação há mais de 15 anos. O autor do livro “Continue Voltando: histórias de recuperação” tem um altar para Haruki Murakami, é mestre em dar pitacos, fã de livros clássicos, colecionador de listas de leitura, pai de pet e marido de psicóloga.
