quinta-feira, 5 março, 2026
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Lucas Jensen estreia a coluna Marginália – Literatura e Vida

E temos mais uma estreia de colunista parceiro do Mural do Paraná! Com 15 anos de experiência em Comunicação, o jornalista, publicitário e escritor Lucas Jensen se junta ao nosso time. A coluna Marginália – Literatura e Vida será quinzenal,

Você já estragou um livro hoje?

Eu sempre tive um respeito excessivo pelos livros. Quase um medo. Culpo em partes a Tia Regiane, professora da 2ª série, que nos aterrorizava com a ideia de castigo caso verificasse qualquer indício de uso das obras de Ana Maria Machado e Maria José Dupré à nossa disposição.

Era religioso. Todas as sextas-feiras, um pouco antes da saída, íamos um a um até uma outra sala, abarrotada com livros, em cerimônia, escolher um exemplar. Assinar meu nome no controle em papel era tarefa hercúlea. A responsabilidade pesava nos meus ombros de 8 anos.

Foi por isso que aprendi a cuidar da brancura das páginas como se fosse algo sagrado, o que para quem sempre andava por aí com marcas de comida nas camisetas era um desafio em si. Não é necessário dizer que fracassei muitas vezes, apesar dos meus esforços. Inclusive, até pouco tempo atrás, “O Vampiro que Descobriu o Brasil“, de Ivan Jaf, ainda estava comigo. Desculpe, Tia Regiane…

Decepcionar a professora era uma heresia, na minha casa e dentro da minha cabeça. Lembro-me de calcular margens nos cadernos de redação e simplesmente não conseguir começar um texto novo na página da esquerda. Tudo por orientação dos educadores.

Esse pânico disfarçado de zelo passou para a vida adulta. Cresci achando que os livros eram monumentos intocáveis e inalcançáveis. Com espírito de bibliotecário abstêmio, encarei os mais diversos clássicos da literatura brasileira e mundial à base de testa franzida, dor de barriga e ansiedade. A vida escolar estava repleta de Tias Regianes.

Isso levou ao meu afastamento dos livros. Por mais de uma década praticamente não abri um livro por prazer e poucos por obrigação. Passei por uma faculdade de comunicação sem aproveitar totalmente. Eu poderia culpar somente a Tia Regiane, mas a verdade é que eu também não soube superar o distanciamento que os livros me causavam.

Só melhorou um pouco quando, na pandemia, resolvi investir num Kindle “para ler mais”. O e-reader saciou instantaneamente a sede por ordem e cuidado. Responsabilidade. Sede que não era nem minha. Agora eu era digital. Organizado. Estéril.

O retorno ao livro físico veio recente. Em uma das minhas visitas a um sebo aleatório, trombei com um exemplar muito específico. A lombada branca dizia “O crime do restaurante chinês”, de Boris Fausto. Muitas vezes levo livros embora e não leio a sinopse antes de comprar. Esse era particularmente enigmático. Ao retirar da estante, a primeira coisa que noto não é a capa, que trazia uma manchete de jornal do mistério do qual se tratava o livro, mas sim as dezenas de marcadores adesivos coloridos que marcavam quase todas as páginas. Não tive dúvidas. Abri.

O que encontrei dentro foi quase um filme de horror para Tia Regiane. Trechos grifados com marca texto rosa, flechas à lápis puxando para pequenas frases desconexas, uma mancha que parecia muito o bigode do Salvador Dali de molho de tomate.

Porém, aquilo já não tinha o mesmo peso para mim. Em vez de aversão, o livro me causou interesse. Por isso trouxe para casa, onde está até hoje entre “O Voyeur” e “Crônicas de Bob Dylan“, na prateleira do meio de uma estante pequena demais para seus ocupantes.

Estranhei o meu comportamento. Vindo de uma pessoa que sentiu dor física ao ver um colega de faculdade desmembrar um livro para ficar mais leve de carregar, era uma mudança e tanto.

Lembrei dessas passagens quando me foi “oferecido” um espaço aqui no Mural – por livre e espontânea cara de pau por parte deste que vos fala – e estava pensando em como chamar esse espaço. Para quem vem do Jornalismo, uma coluna é algo sério, quase como um horário reservado para cortar o cabelo: não se pode deixar o barbeiro esperando, nunca. Essa atitude vem do mesmo lugar do pânico da Tia Regiane.

Dediquei um generoso espaço mental para decidir sobre o que eu queria escrever e como chamar a minha primeira coluna na vida. Sobre o assunto, estava mais do que óbvio. A literatura é algo que me segue e dita os ritmos dos meus dias há muito tempo. Mas eu queria mais. Não queria trazer resenhas, críticas, avaliações nem nada do tipo. Isso é o que não falta por aí. O que eu queria de verdade é poder falar sobre como a vida se entrelaça com a leitura e com a escrita. Estava lançado o desafio.

Se você é uma pessoa normal, provavelmente nunca ouviu falar no termo “Marginália”. Abrasileirado do latim, diz respeito às notas e comentários feitos nas margens. Essa palavra me veio ao refletir sobre o meu papel na vida com relação aos livros. Ou sobre o papel dos livros na minha vida. O ponto é que sempre gostei da expressão no original. The Marginalian, inclusive, é o nome de um blog escrito pela Maria Popova que sigo há vários anos, e que é também inspiração para a coluna.

Aparentemente foi S.T. Coleridge, um poeta romântico inglês, a vanguarda da palavra. Ela interpretava uma particularidade sua: a de escrever nas margens. Inclusive, cinco volumes só de marginálias suas já foram publicados. Infelizmente não achei em português.

Sempre fui de ir puxando o fiapo até descosturar a bainha. De desmontar os brinquedos e não saber montar depois. Então, quem é um pouco assim irá gostar de saber, ou relembrar, que esse tipo de atividade já existia há muitos séculos. É herança dos manuscritos, principalmente litúrgicos, que traziam rabiscos, comentários, glosas, anotações, críticas e desenhos – inclusive um tanto pornográficos, escatológicos e engraçados, muitas vezes.

Com a invenção da prensa e a popularização dos livros, a prática de se escrever nas margens tornou-se obsoleta, já que não existia mais a necessidade de adicionar informações, conhecimento ou fazer graça nos manuscritos para as gerações futuras. Alô, modernidade?

Foi só lá por 1844 que um tal de Edgar Allan Poe começou a escrever uma coluna para o The Democratic Review. O nome: Marginalia. O projeto durou cerca de cinco anos e era uma coleção de suas reflexões sobre a escrita e sobre a alegria de conversar com a literatura em suas margens.

Marginália, para mim, é borrar as bordas de uma história, expandindo seu contorno. Esse floreio fundamental não só enriquece o texto, mas quem está lendo e quem está escrevendo. Ao não se delimitar, o livro torna-se um diálogo polifônico que ultrapassa gerações. É um pouco disso que quero passar aqui na coluna.

Uns dizem que há um jeito certo de anotar. Outros, que se necessita de uma espécie de método para arquivar. Eu sou do tipo que anota para dar pitaco, para me tornar um pouco mais livre, para deixar a minha marca, para fazer parte da história. Quase como um cachorro quando pisa no cimento fresco. Uma intervenção abusada que vem da minha aparente incapacidade de seguir regras, mesmo que seja o meu objetivo, mesmo quando elas só existem na cabeça de professoras da segunda série.

Há algo de diferente nos livros da minha coleção, hoje. Praticamente qualquer um estará anotado em algum ponto. Existirá um trecho dele copiado em um caderninho. Os cantos vincados, o papel ligeiramente engordurado nas bordas, as linhas riscadas, as orelhas tortas.

Se, para Voltaire, na prisão, esticar as margens para abraçar seus pensamentos funcionava para manter a lucidez, quem sou eu para dizer o contrário. Se para Oscar Wilde, Sylvia Plath, Lima Barreto, Herman Melville, Mário de Andrade, Hilda Hilst e Machado de Assis a marginália era quase um vinho cerimonial, quero uma garrafa.

Sem desmerecer a Tia Regiane, mas desta vez eu prefiro estar em melhor companhia.

Lucas Jensen é jornalista, publicitário e escritor, formou-se em 2019, mas trabalha com comunicação há mais de 15 anos. O autor do livro “Continue Voltando: histórias de recuperação” tem um altar para Haruki Murakami, é mestre em dar pitacos, fã de livros clássicos, colecionador de listas de leitura, pai de pet e marido de psicóloga.

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