
Em 2010, ainda filiado ao PMDB de Requião que o abrigou e o tornou uma espécie de boneco de ventríloquo, Rafael Valdomiro Greca de Macedo disputou as eleições à Câmara Federal. As urnas não lhe foram simpáticas. Apenas 37.457 dos eleitores cravaram o voto no ex-prefeito de Curitiba. Um resultado amargo para quem, disputando o mesmo cargo, já fora um campeoníssimo com mais de 200 mil votos.
Greca não esmoreceu. Deixou o PMDB, transferiu-se para partido nanico, e desafiou os prognósticos mais sombrios, retornando à prefeitura de Curitiba depois de mais de duas décadas. Um trunfo para um político de apenas 61 anos.
Em seis meses, no entanto, o prefeito parece ter deixado de lado a promessa de devolver Curitiba ao curitibano – um mote de resgate da cidade que atraiu a simpatia do eleitor – para incorporar um profeta que nunca foi.
HOMILIA

Na terça-feira (20), depois da manifestação que reuniu servidores públicos em frente à Câmara Municipal, em protesto contra o pacote fiscal da prefeitura, Greca foi aos meios de comunicação para uma… homilia.
Mandou um recado aos manifestantes: “Vocês não sabem o que fazem”. Lembrou alguns dos pecados capitais, entre os quais a avareza. E ameaçou com o apocalipse de João: “Se o pacote não for aprovado, nós não poderemos pagar nem salários nem benefícios a partir de setembro”.
LADEIRA ABAIXO
É grave a crise, não há dúvida disso. Em todo momento, números devastadores da economia mostram que o Brasil desce ladeira abaixo. Mas não é preciso um Antônio Conselheiro agitar o cajado no alto do morro para que se perceba o que vai à nossa volta.
Se Greca deseja ser um profeta e há sinais em seu histórico que dão conta disso, que use o púlpito adequado, não o da prefeitura. A insistir, corre o risco de beirar o cômico e de ensaiar o mesmo papel que encenou no governo Roberto Requião, a um custo alto, se a dignidade lhe é cara.
SEM DISTINÇÃO
O prefeito quer cortar gastos e ninguém o reprova por adotar tais medidas. Mas é preciso que a austeridade atinja a todos, sem distinção de cargos ou acordos políticos, o que parece estar longe de ocorrer. Se não há eficácia econômica em cortar um posto de primeiro escalão, o efeito moralizador basta. É o que se espera de um prefeito-profeta ávido por repetir o sermão da montanha na primeira oportunidade que lhe apareça: “Bem aventurados os que têm sede e fome de justiça”.
ILHA DA PROSPERIDADE
O outro lado é o da manifestação. Por muito tempo a prefeitura de Curitiba gozou da fama de Ilha da Prosperidade em meio à crise. Não importava o que ocorria à sua volta, o município transbordava em arrecadação e em cargos sobejamente bem pagos. Não mais. A crise está instalada. Não apenas em Curitiba, mas na Região Metropolitana – o caso de Colombo é o mais visível – com reflexos na economia. Não se pode abastar um funcionário público de uma gama de privilégios sem recursos para isso. Trata-se de um longo histórico de bonança, alheia à tempestade, que hora ou outra iria apresentar a conta. Pois essa hora chegou.
MAUS CONSELHOS
Mas como subtrair privilégios que durante longo tempo foram incrustados no serviço público, deixando o trabalhador privado a pão de ló? Ora, com temperança. Se Greca quer levar à frente sua reforma na estrutura do funcionalismo deve começar discutindo ponto a ponto com os membros da categoria. Baixar o cassetete e esperar que um superintendente da Guarda Municipal com a testa sangrando não jogue o profeta contra a população, é um claro sinal de que algum ‘apóstolo’, travestido de assessor, anda assoprando maus conselhos em seu ouvido.
ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
Ser um prefeito-profeta não é tarefa fácil. Implica em julgar e ser julgado. Implica em fazer sacrifícios antes de esperar que o façam. Do contrário, se desafiar os pecadores a atirar a primeira pedra, é capaz de vê-la atirada mesmo. E contra ele.
