quarta-feira, 6 maio, 2026
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“O PODEROSO CHEFÃO” FAZ 45ANOS E APAGA A VELA NO BRASIL

“Dom Corleone”: um clássico
“Dom Corleone”: um clássico

Nesta quinta-feira (20), a Secretaria de Cultura do Estado promoveu uma sessão de “O Poderoso Chefão” no auditório Brasílio Itiberê. Foi uma oportunidade única para reviver um clássico de todos os tempos do cinema. O filme de Francis Ford Coppola, contudo, é também uma alegoria do pior que o Brasil pode oferecer em tempos de corrupção.

CHOCOLATE

De longe, Vito Corleone, o capo di tutti capi é um iniciante se comparado com o executivo Hilberto Mascarenhas, chefão do Departamento de Propinas da Odebrecht, que em um quarto de hotel, repassava a gestores públicos e políticos valores vultosos em troca de uma palavra-senha simplória como “Chocolate”. Por temer assaltos, os corruptos exigiam que o local de entrega nunca fosse o mesmo. Quando ficou constatado que poderiam ocorrer assaltos, passaram a pedir que a entrega das malas, das mochilas, dos pacotes endinheirados fossem feitas em casas de parentes.

CASA DA MÃE

O ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, solicitou a encomenda na casa da mãe, em Salvador. Doleiro do esquema Sérgio Cabral, Álvaro Novis mandou que o dinheiro fosse deixado em uma baia do Jockey Club do Rio.

Foi assaltado. Levaram entre R$ 7 e R$ 8 milhões. Mas, tranquilizem-se, o cavalo não é suspeito.

SÓ UM PAR DE BRINCOS

Há semelhanças sim, mas as proporções devem ser guardadas. Talvez nem o caporegime Peter Clemenza fosse capaz de carregar tantas malas de dinheiro em sua longa vida de crimes. Ainda que a polícia, os políticos, os juízes e, sim, a imprensa estivessem no bolso das cinco famílias mafiosas de Nova York, o dinheiro era entregue em pequenos envelopes, suficiente para que se comprasse um par de brincos de brilhantes em uma joalheria. Não a loja da H. Stern.

FOLCLORE POLÍTICO

É como diz um velho petista, saudoso dos anos de luta: “Bons tempos em que o dinheiro cabia na cueca”. Bons tempos mesmo. Em 8 de julho de 2005, José Adalberto Vieira da Silva, assessor do deputado estadual José Guimarães (PT-CE), foi preso no aeroporto de Guarulhos, tentando embarcar com R$ 200 mil em uma mala e US$ 100 mil (cerca de R$ 300 mil) em um saco plástico dentro da cueca. O caso entrou para o folclore político brasileiro.

COM AS CARAVELAS

Hoje, como diria o presidente Lula, tal importância é uma “merreca” se comparada com os milhões amealhados e depositados em contas no exterior como paga a políticos de todos os naipes e matizes. Espera-se uma punição exemplar, mas não se sabe se ela virá. Teme-se a banalização da corrupção. Que ela não seja encarada como um problema. Que se relativize o dinheiro surrupiado, dando a ele uma escala de importância, quando a prática do crime por si só despreza o valor pecuniário. A filósofa Hannah Arendt viu a banalização do mal através dos olhos dos carrascos nazistas. O temor é o mesmo no Brasil. Respaldado no argumento de que a corrupção é uma herança portuguesa. Aportou com as caravelas e assim deve ser encarada. Nem a moral mafiosa é tão cega.

CLÁSSICO

A propósito, “O Poderoso Chefão” é um clássico do cinema. Quanto ao propinoduto brasileiro, é um filme B da realidade. E olhe lá.

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