
O terceiro volume, em quatro previstos, dos “Diários da Presidência”, em que Fernando Henrique Cardoso retrata o período de oito anos em que esteve à frente do governo brasileiro, já levanta uma questão. Afinal, FHC era ou não um líder?
INTELECTUAL
Um dos fundadores do PSDB, o ex-presidente da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, acha que não. Trata-se de uma avaliação fria e isenta.
Scalco nunca viu em Fernando (ele o trata pelo pré-nome) um “guru das massas” como era Lula, como foi Getúlio. FHC, antes de tudo, é um intelectual.
Essas foram algumas das definições recolhidas na recente entrevista que Scalco deu aos jornalistas que estão preparando o livro “Encontros do Araguaia, o Paraná segundo seus construtores contemporâneos”.
O livro recolhe amplos depoimentos de homens que tiveram papel relevante na histórica política do Estado a partir do século 20.
Os outros já ouvidos foram Alvaro Dias, Jaime Lerner, Osmar Dias, René Dotti, João Elísio Ferraz de Campos, Borsari Neto.
CHANCELER
Nem mesmo queria ser ministro da Fazenda, cargo que o levaria à presidência da República nas eleições de 1994. Nos primórdios do governo Itamar Franco foi alçado à condição de chanceler (ministro de Relações Exteriores) em uma presidência de curta duração. O Brasil passara pelo impeachment de Collor e precisava reorganizar-se. Era a primeira versão do que ocorreria ao país duas décadas depois, mas em modos mais catastróficos porque a inflação galopava a 80% ao mês e não passávamos de uma protodemocracia cambaleante.
VOU ANALISAR
FHC estava em Nova York quando recebeu um telefonema de Itamar Franco, conta Scalco. “Ele queria que o Fernando assumisse o ministério da Fazenda e fez o convite”. FHC relutou. Era sociólogo, não economista, mas diante da insistência de Itamar ficou de analisar. E desligou.
PEGO DE SURPRESA
No outro dia, logo pela manhã, toca o telefone. FHC atende e ouve, do outro lado, a voz aflita da mulher, Ruth Cardoso: “Você enlouqueceu? Está no Diário Oficial a sua nomeação para o Ministério da Fazenda”.
PLANO REAL
Daí surgiu a semente do Plano Real. Não da cabeça de FHC porque, insiste Scalco, ele não era um economista, mas de sua capacidade de aglutinar em torno de si a melhor equipe econômica. E ainda assim não era o líder. Era um membro notável.
CONTA BILIONÁRIA
Scalco lembra. A certa altura, Fernando Henrique Cardoso o convidou para assumir o Ministério do Trabalho. Ele reagiu da mesma forma que o amigo reagira, anos antes, diante do telefonema de Itamar: torceu o nariz. Não sabia do que se tratava, mas, para que não parecesse descaso, ficou de analisar e conferir. Pois descobriu, estupefato, que só os recursos destinados ao FAT, o Fundo de Amparo ao Trabalhador, somavam R$ 85 bilhões. Boa parte controlada pelos sindicatos. Por outros motivos, recusou o convite, mas a cifra nunca lhe saiu da cabeça.
SETOR DE ATRASO
“O sindicalismo precisa ser enfrentado com força, é um setor de atraso”, diz. E completa: “A pior coisa que o Getúlio fez foi criar o imposto sindical e dispensar a prestação de contas. Ou seja, os sindicatos agem à revelia da sociedade, sem dizer onde e como gastam o dinheiro público”.
CACIQUES DEMAIS
Que influência teria hoje FHC se quisesse retornar à política? Scalco responde: “Muita influência. O problema é o PSDB. O partido foi muito cedo para o poder. Não se formou, não criou bases. Virou algo como uma tribo de caciques com poucos índios”.
Não há definição melhor.

