Singular, afetiva, Dona Dinah era contagiante nas expressões de afeto instantâneas

Morreu a gaúcha Dinah Valério, 93, natural da cidade de Rio Grande, onde viveu até semanas atrás, e exerceu forte liderança espiritual. No estado brasileiro em que não predominam raízes africanas – o Rio Grande do Sul – ela estava entre aquela multidão de adeptos da Umbanda, expressão religiosa de matrizes negras que fez do RS um espaço expressivo dessa escolha de fé, segundo números do IBGE.
Conheci pouco dona Dinah, mãe de meu amigo Cláudio Valério, sogra de Marisa Boroni Valério e avó de Isadora. Se o contato com ela foi rápido, posso garantir que me impressionou.
Aconteceu anos atrás, quando ela, com Cláudio e Marisa, me visitaram na sede do Instituto Ciência e Fé, em Piraquara, Casa Padre Reus – nome em homenagem a um teuto-brasileiro de São Leopoldo (RS).
Singular, afetiva, contagiante nas expressões de afeto instantâneas, Dinah foi visitando conosco a casa enorme. Chegando a uma biblioteca, viu-se diante de uma série de estátuas e imagens religiosas, Nossa
Senhora, um Cristo de Lafaete Rocha, uma Nossa Senhora da Flores, quase todas preciosidades artesanais. As peças fazem uma coleção de objetos de devoção (se assim o quisermos) ou têm papel meramente decorativo. Mostram, no mínimo, que o dono da casa – eu – aprecia, a arte “naif” dialogando com os mistérios do sagrado.
O que me impressionou é que aquela gaúcha, de baixa estatura, com sobrepeso evidente e uma alma marcadamente alegre, dona de visível equilíbrio dos que sabem liderar, parou diante daquelas peças que, no caso, devem ter-lhe sugerido um altar. Levantou as mãos aos céus, a face radiante – uma luz poderosas nos olhos – começou a rezar. Deu graças, rezou o Pai Nosso, improvisou preces.
Dinah ficou pelo menos 4 a 5 minutos como que em êxtase, sem manifestações físicas de estar recebendo alguma entidade do além. Ela estava sendo o que, depois soube, sempre foi, uma mulher íntima do sagrado, com o qual buscava luzes e energia para guiar seu povo, a partir de sua família de muitos membros, filhos, netos, bisnetos.
O vídeo que segue é um momento significativo: dona Dinah faz uma homilia-oração transbordante, abrindo uma refeição familiar. Com bom português, mas sobretudo com a intimidade dos que sabem falar a língua dos homens e dos anjos, ela exerce, no vídeo, uma marca de seu sacerdócio – a missão do agradecimento. (AMGH)
https://www.facebook.com/aroldomuraghaygert/videos/2632220610439274/
