quinta-feira, 9 julho, 2026
HomeMemorialVida e morte de revistas: Anotações para a história (Parte I)

Vida e morte de revistas: Anotações para a história (Parte I)

Ao ser informado que uma das mais importantes revistas que o Paraná já teve, a Ideias, de Fábio Campana, deixa de ser impressa, e vai optando pela circulação apenas digital, não me contenho. Acho que é minha obrigação, como jornalista profissional veterano, lançar um olhar memorial , podendo, por vezes, ser até compassivo, sobre o universo das revistas que tivemos no Paraná ao longo das 5 últimas décadas. Mas é o passo importante numa seara na qual pouco se trabalhou. É minha contribuição à História da Imprensa do Paraná, sujeita a correções, claro.

É exercício de pura memória, parte do olhar de quem viu exemplos desse segmento nascer (1960) crescer e morrer nas últimas 7 décadas. Excluo, pela impossibilidade momentânea de pesquisas, ir às revistas que circularam no século 19 e começo do século passado. O Templo das Musas, de Rozala Garzuze, por exemplo, teve sua revista. Mas tento expressar minha visão e boa memória sobre revistas com as quais tive alguma proximidade, como leitor, colaborador eventual ou permanente (caso de Club e Quem).

LEMBRA DA ETC?

Antes de lamentar, ou simplesmente me dobrar à inexorável marcha do tempo, diante da realidade das revistas puramente digitais, tenho que registrar meu lamento por termos sido privados, 10 anos atrás, da revista ETC, o mais ousado projeto editorial que vi nascer e crescer no Paraná. Foi também criação de Campana, por meio de sua Travessa dos Editores.

Lá se encontrava de tudo que pudesse ampliar os horizontes do espírito – poesia, artes plásticas, literatura em geral, experimentações linguísticas, ensaios diversos, vôos em torno da História e namoros sérios com a Etnografia e a Antropologia.

Tudo bem dosado, sem exibicionismo, muitas vezes até recomendando aos leitores atenções a novos talentos de multos saberes que estava a lançar. E, não menos importante, sob inigualável programação visual. Inigualável é a palavra adequada.

Por lá vi transitarem nomes como Rubens Camargo Campana, hoje membro da diplomacia do Itamaraty, e jornalistas de alto coturno, como Márcio Renato dos Santos.

PANORAMA

Dos títulos de assuntos gerais, a revista mensal Panorama, fundada por Oscar Soethe foi muito resistente e marcada por continuidade no século 20. Por anos funcionou na Galeria Ana Cristina, na Praça Osório. Durou uns 20 anos, circulando regulamente até meados dos 1990, se não me engano.

Dirigida por jornalistas, como Hermes Soethe, e com quadro de colaboradores de alto nível, a revista chegou mesmo a ser uma das melhores fontes de referência do Paraná em tempos que nem sonhávamos com Internet e seus desdobramentos.

Tempos em que as pesquisas exigiam horas em cima de arquivos em bibliotecas públicas e privadas em busca de aprofundar temas. E, junto, a corrida em busca de fazer um “fac símile” de textos dos livros, o que nem sempre era possível.

Foi com essa visão jornalística inicial que Panorama ganhou algumas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, com reportagens de Luiz Carlos Cinha Zanoni e Aramis Millarch, que trabalharam realidades ambientais paranaenses. Uma delas, Guaraqueçaba e seu mundo ecologicamente então preservado, sobretudo pela quase impossibilidade física (falta de estradas) para se chegar àquele então paraíso terrestre.

Panorama teve também, em momentos diversos, um timão de comentaristas políticos, como Luiz Geraldo Mazza, Aloísio Blasi, Samuel Guimarães da Costa, Clovis Stadler de Souza, Hugo Santana…

Com o passar dos anos, Panorama foi perdendo seu brilho inicial, e se tornou campeã na aceitação de matérias pagas, aquilo que hoje, para manter imagem de separação entre o jornalismo e a publicidade, publicações classificam como “trabalho de lab.” E foi o excesso de matérias pagas desvalorizou, em certo tempo, a revista e nunca ajudou, de fato, aos governos aos quais acolheu em suas páginas.

JOAQUIM, SEM IGUAL

Joaquim, a revista foi criada por Dalton Trevisan, circulando de 1946/48. Ganhou facilmente espaço na História do país, pela qualidade dos colaboradores que se dispunham a examinar todo aquele mundo pós II Guerra, suas incertezas, suas perspectivas, a partir do olhar de um timaço: além de Trevisan, Poty Lazzarotto, Themístocles Linhares, Erasmo Pilottto, Antonio Cândido, Mário de Andrade, Wilson Martins, Otto Maria Carpeaux, Carlos Drumond de Andrade, José Paulo Paes, Cândido `Portinari, Di Cavalcanti, Vinicius de Moraes, Sergio Millet, Heitor dos Prazeres. Era uma proposta editorial muito além da provincial Curitiba. Acho que Joaquim não estabelecia limites para os temas, o lance era livre.

No entanto, fica claro que a revista iria abordar com ênfase temas como democracia e socialismo. O que Dalton deixou claro é de que a revista queria estabelecer uma ambiente cultural diferente, criar vertentes renovadoras, e deixar para trás “como rescaldo de guerras” – questões éticas e estéticas, como me relata um professor de Jornalismo que pede anonimato. Foi com certeza pela presença na revista Joaquim que Dalton, Wilson Martins, Poty, Themistocles, José Paulo Paes, entre outros, ganharam trânsito nacional. E com um detalhe: nunca faltaram anunciantes à publicação que fechou por livre vontade de seus titulares, Dalton e Pilotto.

A Panorama foi fortemente marcada pela presença de José Cury, o mais bem articulado dos vendedores de espaços jornalísticos, que, com o passar dos anos e os muitos veículos em que atuou, se tornou um personagem quase folclórico da imprensa do Paraná.

PLANALTO , QUEM E CLUB

Dino Almeida

Colunistas sociais, que tiveram seus dias áureos com Dino Almeida, Calil Simão, Jury Carnascialli e Carlos Jung – entre os 1960 a 2000 -, foram alguns dos responsáveis por revistas importantes que circularam em Curitiba.

O forte deles era o mundo dos “socialites”; mas nunca deixaram de olhar bem o mundo em derredor, caso especialmente da Quem, de Carlos Jung, que, nos anos 1980 cercou-se de um time de ótimos profissionais, como Ana Luzia Palka, Marceline Aschcar, Rosirene Gemael, Almir Feijó.

Tão oportuno o título Quem que, anos depois de a revista estar desativada, uma

editora de SP começou a publicar a sua Quem…

Dino, com o competente Nelson Faria – este, bom redator, excelente artista gráfico e criador de grandes “sacadas” ao lado de DA, como “Caiobá, a Divina” – foi o fundador e diretor da revista Club. A revista nasceu em 1960, estabeleceu-se no edifício Tijucas, reunindo o “crème” de uma intelectualidade da época, além de nomes do socialite que por lá gravitavam, na sede da publicação. Ficava no Edifício Tijucas, o mesmo que abrigou a primeira casa da TV Canal 12, de Nagibe Chede, no começo dos 1960.

Carlos Jung

A Club, onde me iniciei no jornalismo, atraia gente do melhor quilate para seu quadro de colaboradores e presenças constantes na redação. Lá faziam ponto o internacional fotógrafo Salomão Scliar, René Dotti (começando como advogado que depois seria jurisconsulto de códigos), Luiz Geraldo Mazza, Aurélio Benitez, Máxime Charles Barrault, Jacques Zitronenblatt…

(CONTINUARÁ)

Leia Também

Leia Também