
Em entrevista à DW,Christian Drosten, o especialista alemão, que
desenvolveu o primeiro teste de diagnóstico do mundo do Sars-Cov-2,
avalia a situação da pandemia no mundo e projeta até quando ainda as
máscaras de proteção serão indispensáveis.
A entrevista é de Nina Haase, publicada por Deutsche Welle, 19-09-2020.
Eis a entrevista.
Por quanto tempo ainda vai persistir a pandemia causada pelo novo
coronavírus?
É muito difícil fazer previsões em nível global. Temos muitas situações
diferentes e difíceis na Europa. O inverno não vai ser fácil. Teremos
vacinas no ano que vem, mas penso que determinadas parcelas da população
só poderão ser vacinadas no fim de 2021.
Não nos livraremos das máscaras tão cedo. Pois, mesmo quando for
iniciada a vacinação, a maioria da população ainda terá que usá-las. Em
países como a Alemanha, onde há poucas infecções, não haverá uma
imunidade ampla. Provavelmente também será assim nos demais países da
Europa.
ÁFRICA: DIFÍCIL
Já para outras regiões, é difícil fazer previsões. Na África, por
exemplo, o curso da doença parece ser menos grave. Isso pode se dever à
estrutura demográfica, mas no momento estamos observando apenas os
centros urbanos, onde vivem muitos jovens. Não sabemos como o vírus se
comporta quando se propaga nas áreas rurais. Também não sabemos como
está a epidemia lá no momento. Há dados indicando que as infecções estão
diminuindo, mas não sabemos se podemos generalizar. É possível que a
epidemia esteja diminuindo nas cidades, mas também pode ser que esteja
apenas começando. Que regiões o preocupam mais?
ÍNDIA PREOCUPA
A Índia me preocupa mais no momento, porque lá a densidade populacional
é alta e o vírus está se alastrando – eu não diria que de forma
descontrolada, mas quase. Depois, é claro, áreas da América do Sul. Já
falei da África, uma pequena incógnita no momento. Mas também me
preocupa o Hemisfério Norte, às portas do inverno, e há regiões,
inclusive na Europa, com pouco controle sobre o vírus. Países onde é
baixa a confiança nas estruturas médicas e nos cuidados de saúde já
estão entrando no outono com muitos casos de coronavírus. Creio que
muitas nações, também na Europa, muito em breve deverão adotar medidas
mais rigorosas.
Outros países veem a Alemanha como uma espécie de modelo a ser seguido
para lidar com a pandemia. O que os alemães estão fazendo certo?
Certamente há uma combinação de várias causas. Uma, sem dúvida, é a ação
direta e decisiva da chanceler federal [Angela Merkel] no início da
primeira onda. Ultimamente, a coesão dos estados federados enfraqueceu
um pouco. Mas o fator decisivo foi com certeza o fato de a Alemanha ter
agido muito rapidamente. Isso foi crucial. Não em termos da data do
calendário, mas em relação ao momento em que foram impostas as
restrições de contato – às vezes chamadas lockdown –, considerando a
evolução real da epidemia. Assim, sabíamos de nossa epidemia com base em
testes de laboratório. Eles e sua ampla disponibilização distinguem a
Alemanha de outros países.
OUTRA EXPLICAÇÃO
Outra explicação é que a epidemia começou um pouco mais tarde na
Alemanha. Os primeiros casos importados de covid-19 não viraram epidemia
já em janeiro, mas só no final de fevereiro. Os primeiros casos
importados foram mantidos sob controle, em vez de se alastrarem. Esta é
provavelmente a razão da eficiência da nossa abordagem. Após o lockdown,
digamos a partir de meados de maio, houve na Alemanha apenas poucos
casos, e isso não mudou, apesar de termos agora novamente um ligeiro
aumento dos contágios.
Estamos às portas do outono e inverno no Hemisfério Norte. O que acha
que vai acontecer na Alemanha?
Acho que há poucas diferenças entre os países europeus em termos de
estrutura populacional e outros parâmetros. Devemos, portanto, olhar
para os demais, França, Reino Unido, Espanha. O que virmos lá, veremos
também na Alemanha, se não reagirmos em tempo de forma objetiva, mas
suportável para a economia.
É difícil encontrar o momento certo para mudar as medidas que temos no
momento e sobre as quais não há o que criticar.
QUANDO ABRAÇAR?
O senhor disse que provavelmente teremos que usar máscaras ainda por
algum tempo. Quando poderemos abraçar novamente?
Essa será uma questão muito regional. Portanto, não me surpreenderia se
em algumas partes do mundo no próximo ano a população estiver imunizada.
Isso significa que ela terá passado por uma epidemia que pode não
parecer tão grave por causa de sua estrutura etária. Na África, por
exemplo, poderia ser esse o caso. Eu gostaria de ver a população
africana protegida por causa de seu perfil etário mais jovem. Em outras
partes do mundo, onde a meta é evitar a transmissão generalizada do
vírus e esperar pela vacina, podemos contar com o uso de máscaras até o
fim de 2021. É impossível fazer previsões precisas, mas no ano que vem
ainda estaremos usando máscaras.
