
Do ponto de vista gráfico e editorial, o livro “Tanto ou tão Pouco”, edição do autor, não poderia ser mais gratificante.
Nele, de saída identifico os causadores de tantos méritos presentes no livro. Estão, de saída, nas fotografia e edição – a cargo de Nancy Marchioro e Fábio Marchioro -, e, naturalmente, Tomás Eon Barreiros, criador das preciosidades poéticas.
Essas preciosidades estão em 183 páginas que o leitor relutará em deixar de lado, mesmo que por um pouco.
ITINERÁRIO DE AMORES
Tomás traça um itinerário de amores à infância, à mocidade, às descobertas do Sagrado, ao amor erótico, às estradas do conhecimento acadêmico bem fundamentado e conectado à vida. Tudo isso trabalhado com a forte simplicidade dos substantivos, dispensando mesuras, reverências e colagens altissonantes.
Ele domina a ‘arte do bem dizer’, mas especialmente a de poetar com visão contemporânea. Tudo por irrecusável compromisso com o seu tempo e fiel à metamorfose psicológica e espiritual que o fez, um dia, “um novo homem”.
E mais vejo em Tomás e sua poética: apresenta-se compromissado igualmente com o que está por vir. Sabe esse poliglota que domina as bases da filosofia clássica e também meandros de ciências exatas, que “Tempus Fugit”.
Mas não é um mero espectador mudo do futuro. Esperneia, dialoga com o presente, trabalha com desassombro o afetivo, contraposição dos algoritmos.
UNIVERSO DE CADA UM

Pertenço a uma escola de resenhistas de livros que prefere entender o autor(a) a partir do universo em que (ele ou ela) foi gerado e viveu e vive.
Conhecer os escaninhos d’alma do autor é para mim prioridade. E para isso até me apoio no “estilo é o homem”, de Buffon.
Ao resenhar livros (não sou crítico) que me chegam – particularmente os do mundo dos poemas -, coloco em primeiro lugar enxergar a matéria prima de que foi montada o seu autor.
A partir desse ponto de partida, trabalho bem.
ARGILA DE TOMÁS
A argila que esculpiu Tomás tem todas as preciosidades de um Brasil primeiramente rural.
Foi num país de homens e mulheres localizados no Norte do Paraná, da sua Cambará natal, onde ele desabrochou para a vida; com todos os direitos e ‘licenças” de um menino livre.
Na gênese do poeta é notável a raiz italiana da família, a praticidade dos portugueses Barreiros, e o clima intelectualmente fértil em que Tomás nasceu e foi criador.
DOBRADIÇAS
Lá em Cambará foi um garoto preservado das grandes cobiças e dobradiças que, muito depois, iria enfrentar na Curitiba vertical, onde cresceu como homem e intelectual. E nas cidades em que serviria Brasil afora como pregoeiro de uma associação católica tradicionalista da qual se desvinculou totalmente, passo essencial para o qual Yvana foi decisiva.
“SÓ O VENTO VEIO”
A poética de Tomás é da melhor qualidade, flui bordando situações surpreendentes, como quando crava, à página 149 – “Só o vento veio. Soprou-lhe os cabelos negros, dividindo ao meio”. Ou, quando absolutamente sintético, dita um tom de perplexidade e constata:
“Silêncio na noite. Há mil corações abertos. A alma não dorme” (página 145).

Os caminhos da vida pelas quais andou Tomás encontraram um dia porto e âncora. Foi quando ele e Yvana se acertaram, num pacto de amor eterno. O grande fruto dessa união é o filho Tomás Ivan, herdeiro, conheço bem, de duas matrizes genéticas “assombrosamente” privilegiadas.
NADA BISSEXTO
Esse inquieto tipo humano, poeta nada bissexto, alma de artista de multi compromissos (teatro, piano, cinema), chamado Tomás Barreiros, reclama muito mais do que recensão de seus livros.
Está na hora de criaturas como ele deixar uma certa sombra em que vivem e proclamarem-se artesãos de um tempo novo. É o tempo dos que não capitulam à ditadura da tecnologia e suas “revoluções”, como a inteligência artificial que se propõe, de alguma forma, a anular o ser humano.
Tomás e seus comparsas – homens e mulheres do orbe todo, como ele -, são cada vez mais essenciais para nos apontar realidades que envolvem sementes de amor e coração, sentimentos e interesses, altruísmo e heroísmo, capacidade de renúncia e, até, estoicismo.
