O curitibano Fábio Bueno Netto, 56, e o paulistano Givaldo Amaral dos Santos, 49, têm um traço comum a ligá-los: o amor aos livros

No resto, há poucos elos entre eles. Mas os dois são notícia. O primeiro, por exemplo, vem de família de raízes paranaenses e paulistanas tradicionais; o outro é um homem do povo típico, ex-segurança do metrô de SP, formado na USP em História, dono de uma livraria especializada em obras raras na Capital paulista, sobre a qual a Folha de São Paulo acaba de publicar ampla reportagem.
Ambos têm histórias de vida singulares.
A de Fábio Bueno Netto me chama particular atenção, a começar pela mídia espontânea que tem ganhado nos meios de comunicação brasileiros – como Veja e Fantástico, da Globo, Exame, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo -, e pelo fato de que ele, com suas máquinas de vender livros no metrô de SP e Rio, a preços que vão de R$ 2,00 a 10,00, vai garantindo a descoberta de novos leitores: atualmente eles são 60 mil pessoas/mês.
Esse número – garante Fábio – corresponde à metade do total de livros que as bibliotecas da Capital paulista emprestam juntas, todos os meses.
No começo de seu projeto de edição e publicação de livros, em 2003, chegou a vender 100 mil exemplares/mês.
Não há estatística no Brasil que indique tão impressionante vendagem movida por um só homem com a mínima estrutura de 8 pessoas, seus auxiliares. Ele é campeão inquestionável. Mas não se trata apenas de um empreendedor comercial.
– Para mim, antes de vender livros importa formar leitores, declara Fábio, como quem delimita seu território de claros interesses. O objetivo social vem primeiro, antes do que o mercantil, este um meio para atingir seu alvo de idealista.
UM PADRÃO

Bueno Netto, na verdade, não foge ao que eu denomino de “padrão dominante” na família, cujo patriarca foi Odwaldo Bueno Netto “in memoriam” (casado com Winnefrid Ethel Bueno Netto, cidadã britânica da Ilha de Santa Helena).
O casal foi pioneiro de Maringá, dono do primeiro cinema da cidade e dono da fazenda que, com os anos, acabou cedendo para o aeroporto local.
O padrão idealista é, pois, ancestral.
Fábio é isso mesmo, um idealista, capaz de investir tudo – talento, tempo, dinheiro – em projetos de relevância social, acima de interesses mercantis. O avô, pai e alguns tios e primos agiram e agem muitas vezes dentro desse diapasão.
Na noite em que, na casa de minha afilhada Letícia Bueno Netto e de seu marido Uriel Gionédis, em Curitiba, surpreendo-me com a expressão de admiração que vota a Fábio Bueno Netto um antigo colega seu da Faculdade de Medicina Evangélica de Curitiba, em que os dois se formaram em 1983.
“Não há estatística no Brasil que indique tão impressionante vendagem movida por um só homem com a mínima estrutura de 8 pessoas, seus auxiliares. Ele é campeão inquestionável. Mas não se trata apenas de um empreendedor comercial.
– Para mim, antes de vender livros importa formar leitores, declara Fábio. Assim, delimita seu território de claros interesses.”
Julio – esse é o nome do “delator” – garante que o amigo é dono de inteligência “atípica”. Nunca foi estudioso, e enquanto os outros da turma ralavam para compreender questões complicadas, Fábio – nem sempre assíduo às aulas – trabalhava com um resumo xerocado de aulas. “E dava-nos lições magistrais…”, recebendo notas surpreendentemente altas. “As mais altas do grupo.”
E não poucas vezes, tinha o assentimento de mestres, como Danton Rocha Loures, para as observações que, em aparente improviso, poderia apresentar em adendo às aulas.
“Fui médico até 1989. Desde então me movo por outros interesses profissionais”, declara, com largo sorriso, esse livreiro nada formal, ex-cirurgião que tinha uma muito promissora carreira.
HISTÓRICO
No histórico de Fábio Bueno Netto há outro marco de envolvimento com projeto idealista: foi sócio nos anos 1990, em Manaus, de seu primo-irmão Silvio Barros II num empreendimento turístico, em parte voltado à causa ambiental; depois, associou-se a uma empresa de turismo daquela Capital, da qual, alega, foi lesado.
“As coisas para Fábio estão sempre mudando para melhor”, diz-me Letícia Bueno Netto, a prima, lembrando que quando ele voltou a São Paulo em 1999, com apenas R$ 85,00 no bolso, “deu o novo norte à sua vida, de forma fantástica”. Uma guinada de mestre.
No retorno à Paulicéia, foi trabalhar na área internacional da antiga editora das Listas Telefônicas, também gráfica, em que ficou por 3 anos.
Nesse tempo – eureka! – concentrou-se no observar máquinas de vender bebidas e guloseimas. “Por que não uma vending machine de livros?”, se indagou Bueno Netto.
E daí lançou-se de corpo e alma ao projeto que o tornou conhecido no Brasil todo, com reconhecimento por sua ação em responsabilidade social, como a premiação que recebeu do jornal Valor Econômico. Dentre outros.
Por quase um ano, envolveu-se no projeto da máquina de vender livros.
Cidadão com dupla nacionalidade, britânica e brasileira, correu o mundo em busca de fabricantes que aceitassem o desafio. Foi aos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Japão, países da Europa.
OS MAIS VENDIDOS
A máquina-solução acabou gestada na Alemanha. Não é barata, pelo contrário. E mesmo assim, desperta muito “olho grande” de uma concorrência que apenas se insinua dentro do metrô de SP.
Com a máquina, a que deu o nome de 24 X 7 ( www.24X7.com.br), porque opera vinte quatro horas por dia, sete dias por semana, Fábio Bueno Netto vem desde então fazendo um trabalho supletivo ao que caberia ao poder público: entregar livro de qualidade a partir de R$ 2,00 a uma multidão de homens e mulheres, jovens e idosos que constituíam – é o que se depreende dos resultados conseguidos – da parte de uma demanda reprimida por conhecimentos.
É gente que dá preferência a livros de temas filosóficos, e quer conhecer o pensamento de Platão, Diderot, Proust, Kant, Voltaire…
E que também tem acesso ao mundo maravilhoso de Antoine de Saint Exupéry lendo “O Pequeno Príncipe” por R$ 5,00. O mais surpreendente é a “Arte da Guerra”, de Sun Tzu – 100 mil exemplares. E também se deleite, pelo simples prazer, lendo Conan Doyle e/ou Machado de Assis.
Por uns segundos noto uma expressão afetiva forte nesse vendedor marcado pelo olhar do interesse social.
É quando ele fala de outra de suas fantásticas edições. Trata-se do livro “Quando o Amor Transpõe o Oceano”, de Winnefred Bueno Netto, sua avó, obra com o qual ele contabiliza 50m mil exemplares vendidos. A narrativa concentra-se na grande aventura que ela e Odwaldo fizeram nos anos 1940, partindo de Santa Helena para o Brasil, onde nasceria uma família de raros pendores humanistas. Um deles, Fábio, o vendedor catequista à procura de formar leitores.
RECEITAS
Se o médico durou pouco na vida de Fábio Bueno Netto (filho de Peter), o vendedor a serviço de causas que vão muito além do fazer dinheiro continua aguçado. Mesmo que, como dizem os que estão mais próximos dele, Fábio hoje não se mostre muito animado com o projeto de livros no metrô.
Seria desgaste do “material” ou pouco ânimo para enfrentar opositores ocultos (ou disfarçados) ao seu projeto de ganhar leitores?
De qualquer forma a ação do ex-médico é um case reconhecido internacionalmente. Como, por exemplo, quando ganhou o “case referência dos livros”, da “101 Innovation Breakthroughs”, dos Estados Unidos, pela revolução que suas vending machines de livros causaram. Reconhecimento que também veio da Endeawor Internacional, dos Estados Unidos, e com o Prêmio Empreendedor Novo Brasil.
Para Fábio, não há receita especial para explicar tão surpreendentes resultados com seus livros, edições próprias, e todos de obras do domínio público.
Uma das pistas pode ter sido a fórmula “fazer muitas cópias de poucos títulos”. E a esse dado acrescenta: “baratear a distribuição, tal como fiz, centrando-a nas máquinas…”
As máquinas são carregadas com quantidades variadas de 250 a 500 livros, dependendo do formato dos livros.
– Curitiba está em seus planos?, pergunto.
– Tentei, mas as coisas nunca foram adiante na Prefeitura…, diz.
Se é perceptível uma certa inquietação de Bueno Netto com o momento do país, a se refletir em seu projeto, ele deixa mostras de que tem o olhar voltado para novos voos. Sempre na linha da imprevisibilidade, da inovação, uma de suas marcas.
E deixa no ar, como que sutilmente passando informação: “Acesse ao site www.aprendicommeupai.com.br“…
E nada mais disse. Nem precisava.
