
William Bonner usou o verbo como se deve na edição de quinta-feira (7) do Jornal Nacional: “Geddel Vieira roubou 20 milhões”. É uma evolução e tanto para os padrões jornalísticos. Por um tempo, o verbo “maquiar” tornou-se sinônimo de “fraudar”. Enganava-se o consumidor nas gôndolas dos supermercados. Mas era maquiagem, não fraude. Chega, portanto, de tapar com a peneira, de omitir, de escamotear o que é o esporte favorito de políticos e autoridades: roubar.
O juiz Sérgio Moro seguiu o âncora do JN. Ao negar a revogação da prisão preventiva ao ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, não mediu palavras: “Ele roubava para o partido”. Roubo é palavra que as criancinhas devem aprender na escola já na alfabetização. Não para que pratiquem o ato de roubar, mas para evitar aquele que faz do verbo uma profissão.
ROUBO DA VERDADE
No estouro do mensalão, em 2005, o então todo-poderoso chefe da Casa Civil, José Dirceu, declarou: “O PT não rouba nem deixa roubar”. Em duas flexões do verbo, no infinitivo e na terceira pessoa do singular, ele nos roubou a verdade.
Ainda que roubar seja uma velha prática da política nacional, o verbo era considerado forte demais para ser dito em público ou impressos nos jornais. Preferia-se algo assim como “desviar”. O dinheiro tomava o rumo dos cofres públicos, mas por razões outras, desviava-se no caminho.
Certamente dava a impressão de um acidente, não de um roubo.
ROUBA, MAS FAZ
A exceção talvez seja o ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, que cunhou a frase: “Rouba, mas faz”. E foi eleito. Era a confissão do ladrão honesto. Há poucos por aí. Na mesma proporção do honesto desconhecido.
O HOMEM DA MALA
O presidente da República, Michel Temer, não cita o ex-deputado e assessor direto Rodrigo da Rocha Loures, lastimosamente paranaense, que foi flagrado carregando uma mala de dinheiro na saída de uma pizzaria em São Paulo. Sequer o critica, sequer o isenta. Quer que o país acredite que Loures agiu por conta própria, assim como agiu sozinho aquele assessor de deputado petista que escondeu dólares na cueca, transformada ali em casa de câmbio. Nos dois casos, roubou-se do verbo roubar.
Na pressa em se livrar da prática e do verbo conjugado, políticos querem diferenciar o que é propina e o que é caixa 2. Não há diferença.
Dinheiro não contabilizado é dinheiro sem nota, sem destino. Se não está na prestação de contas, pode muito estar no bolso do candidato. Dizer que foi um ato louvável em prol do partido é tão crível quanto ganhar na loteria cinco vezes em cinco dias.
O HOMEM DO GUARDANAPO
E se é o caso de ilustrar o argumento, lembre-se do ex-governador Sérgio Cabral, que admitiu em depoimento aquinhoar “sobras de campanha” para uso próprio. Roubar é uma diversão para políticos e autoridades. Eles roubam e desfilam com guardanapos na cabeça. Eles roubam e ostentam na internet. Eles roubam e saem por aí em carros esportivos de dar inveja a James Bond. Eles roubam e saem por aí querendo mais: auxílio-moradia, auxílio-gasolina, auxílio-paletó.
ROUBAR FAZ PARTE
No espocar da champanha, em Paris, Lula resumiu o que pensava sobre o caixa 2: “O PT fez porque eles fizeram”. E eles roubaram.
Em alguns países muçulmanos, a ato de roubar é considerado mais grave que o de matar. Se alguém comete um homicídio pode negociar seu crime com a família que perdeu o ente querido em troca de 10 ou 12 cabras. Em caso de roubo, não há negociação. Usurpou-se um bem, ofendeu-se a propriedade alheia, surrupiou-se um bem público caro ao país. Em alguns casos, o ladrão é executado, em outros cumpre longa pena na prisão e em outros ainda tem a mão decepada. Cruel.
NÃO É RELEVANTE
Em dezembro de 2015, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, vetou o lançamento do livro “Rouba Brasil”, no Salão Nobre da Casa. Escrito por Agamenon Mendes Pedreira, personagem fictício dos ex-cassetas Hubert e Marcelo Madureira, o livro é um conjunto de artigos satíricos que tem como tema os escândalos políticos do Brasil.
Cunha justificou assim sua decisão: “Não se trata de assunto relevante para a Casa”. Ora, se o “Rouba Brasil” não é relevante para os homens de vida pública então, por que raios, o ex-presidente da Câmara está trancafiado numa cela em Curitiba?
