
CASO ZACHAROW E OUTROS
Se os adventistas do Sétimo Dia, pelo menos no Paraná, tiveram nas pessoas dos Losso – Luiz, Igo, Ezequias e Santiago – um papel discreto e ético, como parlamentares, anos atrás, o mesmo não se pode dizer de outras lideranças religiosas que se elegem com o apoio de igrejas no Brasil todo.
André Zacharow, por exemplo, deputado federal de dois mandatos, PMDB/PR, era até 2015, investigado pelo ministro Celso de Mello, do STF, sob suposto uso de funcionários do Hospital Evangélico de Curitiba em suas campanhas eleitorais quando presidia a Sociedade Evangélica Beneficente (SEB). As investigações, na época, foram feitas pela Polícia Federal. Não sei em que ponto está hoje o caso Zacharow.
Com forte apoio em setores das igrejas batistas do Paraná, Zacharow foi apontado, em amplos noticiários publicados pela imprensa – como jornal Gazeta do Povo – por supostamente ter facilitado o mau uso, incorreto uso, de verbas parlamentares que ele conseguira para SEB, e que foram aplicadas fora de sua destinação. Coisa de R$ 4 milhões (sem correção).
Pois é.
Zacharow não conseguiu se reeleger à Câmara dos Deputados nas últimas eleições.
BENÇÃO DE FELICIANO
No plano nacional, o jogo político de religiosos, em busca de poder não tem muito limite.
O controvertido e homofóbico pastor e deputado federal Marcos Feliciano (PSC/SP), por exemplo, ministro de uma igreja que é dos muitos braços da Assembleia de Deus, mal Michel Temer se colocou como possibilidade de assumir a Presidência, tratou de levar sua benção ao hoje vice. Foi ao Palácio do Jaburu, rezou e abençoou Temer e chegou a “absolver” Michel de velha acusação que muitos crentes haviam, ao longo dos anos, apensado à imagem, de que seria um satanista.
Temer, com ar compungido, aquele mesmo das velhas raposas políticas, disse-se homem de oração. E agradecido a Feliciano.
Mais moderado, mas não menos dependente de votos de eleitores religiosos (no caso dele, boa parte dos votos é de gente católica), Magno Malta, senador pelo Espírito Santo, inclui-se na liderança dos políticos evangélicos. Não é um radical religioso e teve papel importante na CPI do Narcotráfico, realizada anos atrás. No geral é respeitado.
O que mais me chama atenção ao registrar a pendular participação de religiosos, em geral, no mundo do poder político, é a capacidade que têm de mudar de lado. No caso de Dilma e Lula, recordo, foram muitas as vezes que eles receberam caravanas de pastores e bispos protestantes para abençoá-los. Algumas lideranças – especialmente da Assembleia de Deus – chegaram mesmo a fazer alianças informais com os petistas em várias ocasiões. E Bancada Evangélica foi beneficiada por inúmeros “aconchegos” que os governos do PT lhes propiciaram, em dinheiro, cargos e poder. A memória digital de tudo isso está aí mesmo…
CNBB QUIETA
E não excluo dessa roda-viva de religiosos em busca de poderosos da política a CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Mas a entidade tem a sabedoria de dois mil anos da Igreja Católica e Romana: manteve-se discreta, embora não necessariamente distante do Governo Federal.
Por uma questão de justiça – e respeito ao fato – tenho que dizer que a CNBB poucas vezes fez manifestações explícitas de apoio ao Governo. Mas, na prática, não se desconhece que a entidade, sob forte influência do ex-ministro Gilberto Carvalho (um ex-seminarista da congregação dos padres palotinos de Curitiba, oriundo do Norte do Paraná, a quem bem conheci nos anos 1970) é uma aliada do PT e o Governo petista.
Desconhecem-se manifestações oficiais da entidade, que reúne os bispos católicos do Brasil, condenando, num só momento, o quadro de desacertos administrativos reinante no país. Nem se ouviu a palavra da CNBB condenando, de forma enfática, a corrupção que grassa na vida nacional.
Esse silêncio contrasta com a linha por ela adotada quando, ao lado de outras instituições, como a OAB/BR, a CNBB lutou pelo fim do regime militar.
A LavaJato, uma adesão nacional à limpeza da vida pública do país, bem que poderia ter tido uma manifestação de apoio na última Assembleia da CNBB, já que 80% dos brasileiros são pró operação em que brilham PF, Janot e Sergio Moro. E a Igreja do Papa Francisco é majoritária no Brasil.
(PROSSEGUE)
Leia mais:
Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 1ª parte
