domingo, 19 abril, 2026
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Religiões em busca de poder, dinheiro e voto – (Segunda Parte de uma série)

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Dom Ivo Lorscheiter
Dom Ivo Lorscheiter

Se Manoel de Mello (in memoriam), fundador da Igreja O Brasil para Cristo foi o primeiro exemplo concreto de negociação por parte de uma liderança religiosa com políticos, em torno de votos, por mim anotado, o que se deu no começo dos anos 1960, é preciso fazer justiça a uma ação importante do pastor.

Foi o seguinte: em plenos anos de chumbo, quando o regime militar, especialmente sob Médici, apertava o cerco contra opositores – anos de confrontos e mortes praticadas, tanto pelos militares quanto pelos movimentos de esquerda -, Mello foi “comovido” pela campanha em favor dos perseguidos políticos e pelos direitos humanos desenvolvida fortemente pela CNBB.

OS PRIMOS

Naqueles dias, os primos arcebispo dom Ivo Lorscheiter, e dom Aloísio Lorscheider (depois cardeal de Aparecida, onde morreu) comandavam a poderosa organização dos bispos católicos que muito combateu o regime militar. E faziam repercutir internacionalmente a voz da CNBB contra a ditadura.

Um dos canais mais fortes da CNBB para essa tarefa foi o Conselho Mundial da Igrejas, sede na Suíça, que, embora protestante, afinou-se totalmente com as teses da Igreja Católica no Brasil.

“Nos mesmos anos 60, uma curiosidade política saltou-me aos olhos: de Alagoas, então predominantemente católica e dona de uma rica religiosidade popular, surgiu outro grande tribuno, Aurélio Vianna. Eloquente, socialista de formação segura, era um cristão praticante, membro de uma das igrejas batistas de seu Estado”.

Deu-se que Manoel de Mello, entusiasmado – e então voz solitária entre igrejas pentecostais brasileiras – aliou-se ao Conselho Mundial das Igrejas para emprestar sua palavra e sua incipiente liderança em defesa dos direitos humanos, avalizando campanhas internacionais pró opositores do regime militar brasileiro.

No entanto, Manoel de Mello e de sua igreja, passada essa efêmera fase de associação de causas sociais à religião, voltaram a centrar-se no lado espiritual. Com eventuais concessões, é claro, a campanhas políticas, em arraiais locais, em guerras nem sempre santa pelo voto crente. Nisso Mello foi um precursor.

Nesses anos 1960/70 o que havia nos meios evangélicos brasileiros eram apenas esboços de participação política. Até por isso, o exemplo de Manoel de Mello, apoiando um candidato a deputado federal em São Paulo (como já mencionado), foi um “marco”.

PRIMEIROS VOTOS

Senador Walter Pinheiro, da Bahia
Senador Walter Pinheiro, da Bahia

Não me lembro de igrejas envolvidas, nos anos 1960, em campanhas políticas. O que não quer dizer que já não existissem membros de igrejas evangélicas conquistando cadeiras nas câmaras municipais, nas assembleias e na Câmara dos Deputados. Tudo incipiente. Mas o que ainda prevalecia – nos anos 60, até começo dos 70 – era um bem definido e delimitado distanciamento das igrejas e seus rebanhos do mundo político.

Não raro se ouvia na boca de lideranças evangélicas de então que “política é coisa de Satanás”. Situação que, poucos anos depois, iria mudar diametralmente, até gerar esse rolo compressor chamado Banca Evangélica, na Câmara dos Deputados, sustentado a puras ambições materiais bem palpáveis. Com raríssimas exceções, para confirmar a regra. Walter Pinheiro, senador pela Bahia (ex-PT) faz parte dessas exceções.

Os moderados metodistas foram, segundo minhas avaliações, pioneiros, com os presbiterianos do Brasil (igreja que esteve sempre sob o comando, discreto mas eficiente, do banqueiro Amador Aguiar), na inserção de seus membros no universo da política.

No Rio Grande do Sul, onde o metodismo de John Wesley era muito forte na classe média – embora não expressivo numericamente – gerou o grande tribuno Rui Ramos (PTB), um aguerrido defensor das linhas do trabalhismo brasileiro desfraldadas por Alberto Pasqualini e Lúcio Bittencourt. Em Porto Alegre surgiu o vereador Geraldo Stedile, metodista.

DE ALAGOAS

Nos mesmos anos 60, uma curiosidade política saltou-me aos olhos: de Alagoas, então predominantemente católica e dona de uma rica religiosidade popular de origem ibérica, surgiu outro grande tribuno, Aurélio Vianna.

Eloquente, socialista de formação segura, era um cristão praticante, membro de uma das igrejas batistas de seu Estado. Aurélio foi uma “pedra de esquina” na defesa de postulados que eram comuns ao seu partido (PSB?) e o PTB de Goulart. Se bem me recordo, foi cassado com a edição de um dos atos institucionais, depois de 1964.

PRESBITERIANOS

Em São Paulo, lembro-me de quanto foi crescendo e se consolidando o nome de Camilo Aschcar, um filho de libaneses, cujos pais teriam vindo de Beirute já praticantes da doutrina presbiteriana. Mas, justiça se faça, esses evangélicos se, por um lado, tinham o apoio discretíssimo de suas igrejas, jamais deixavam que, sequer, se imaginasse suas campanhas vinculadas a barganhas feitas diante do altar.

No Paraná, a presença da Igreja Católica foi sempre muito forte nas eleições. E quem não estava “aos pés” da Igreja, pelo menos não quereria entrar no seu “índex” proclamado contra os “inimigos da Sé de Pedro” pela forte LEC – Liga Eleitoral Católica.

Da LEC me ocuparei futuramente.

Mas quero registrar ainda que os protestantes geraram nos anos 60 e 70 em Londrina o deputado estadual Olavo Garcia, um parlamentar voltado à Educação. Foi bom exemplo de ética e política andando juntas.

(PROSSEGUE)

Leia mais:

Religiões buscam votos, dinheiro e poder – 1ª parte

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