domingo, 19 abril, 2026
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Religiões buscam votos, dinheiro e poder – (Primeiro de uma série)

Pastor Manoel de Mello
Pastor Manoel de Mello

Não consigo silenciar meus conhecimentos sobre o mundo do sagrado institucionalizado no país, especialmente quando constato a que ponto as lideranças religiosas brasileiras chegaram nos dias de hoje, em busca de dinheiro, poder e votos.

Na verdade, o tema me fascina. E o estudo desde o começo dos 1960s quando, repórter do ex-Diário do Paraná, da Cadeia Associada, fui destacado para cobrir, em Curitiba, as primeiras manifestações de um novo movimento pentecostal.

O Emílio Zolas Florenzano (in memoriam), antenado com as mudanças sociais que começavam a ficar bem claras no país, pautou-me para cobrir uma grande manifestação pública que “um certo pastor Manoel de Mello vai fazer no auditório do Colégio Estadual do Paraná”, disse.

Zola Florenzano tinha uma sólida escola de Sociologia em casa, ao lado do pai, o brigadeiro Zola Florenzano, comunista histórico, um intelectual de sólida formação marxista.

O PREGADOR

Eu, de minha parte, já conhecia alguma coisa de Manoel de Mello: em 1959, numa rápida passagem por Porto Alegre, por acaso o ouvi falar sobre seu movimento incipiente, “O Brasil para Cristo”, no Parque da Redenção. O parque era uma espécie de “corner’s speakers” dos gaúchos.

A fala não poderia ser mais singela: o homem semianalfabeto, que havia poucos anos deixara de ser pedreiro em Pernambuco e desde 1955 vivia em São Paulo experiência religiosas – na Assembleia de Deus, como membro; e depois como ministro na Cruzada Nacional de Evangelização (depois adotou o nome de Igreja do Evangelho Quadrangular).

Centrado em teologias que naqueles dias eram absolutamente estranhas para um Paraná centrado majoritariamente na Igreja Católica, Manoel de Mello pregou a cura pela fé, o falar em línguas, o chamado batismo pelo Espírito Santo, a expulsão de demônios… Novidades.

Desaforado, Mello não era homem de respeitar opositores, pelo menos assim se comportou naquela noite de sua estreia em Curitiba. Pois quando lhe fiz uma pergunta que não lhe agradou, ele devolveu:

– Não vou responder a jornalistas de salário mínimo. Nisso ele acertou, eu ganhava pouco mais do que um salário mínimo. Mas nunca explorei crendices e fé populares em minha vida toda.

A GRANDE ALIANÇA

Marquei o nome de Manoel de Mello e, lá por 1964 ou1965, li que ele estava firmando uma grande aliança “de fé e trabalho” com um dos diretores dos Diários Associados de São Paulo que era candidato a deputado federal. E que acabou se elegendo muito bem.

Para os conhecedores dos meandros da política paulista, Mello teria feito “um grande negócio”, colocando os votos de seu povo no candidato. Como resultado, pouco tempo depois inauguraria um enorme templo da “Brasil Para Cristo”, em Pompéia, São Paulo, com 9 mil lugares. Um investimento milionário.

Manoel de Mello foi o primeiro exemplo concreto que anotei, em meus estudos, sobre negociações –milionárias ou não – de líderes religiosos com políticos. Isso no âmbito do mundo evangélico, porque líderes católicos, com outras roupagens e outra linguagem, de há muito barganhavam prestígio e capacidade de carrear votos com os senhores da política.

(PROSSEGUE)

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