
O ex-ministro Geddel Vieira de Lima tem a aparência do porquinho ‘Prático’ da história infantil. Trabalhador e econômico, ele guardou seu dinheiro em um cofrinho à espera de um Natal mais gordo. No caso de Geddel, ele pode interpretar o conto da maneira que bem lhe aprouver.
Esqueça as moedinhas depositadas naquele “Suíno” de más lembranças – era o apelido do político no colégio. Se é para guardar dinheiro, que seja uma economia para o resto da vida. A dele e a de seus descendentes até a quinta ou sexta geração.
Só isso – e nada mais – pode explicar os R$ 51 milhões encontrados no apartamento emprestado a Geddel por um amigo em bairro nobre de Salvador. Foi lá que ele guardou malas e caixas forradas de cédulas de real e dólar, à revelia dos vizinhos do prédio. Para qualquer perguntar inconveniente, a resposta era que ele estava transferindo para as salas vazias do apartamento documentos familiares e lembranças do pai.
‘PENSEI QUE FOSSE OUTRA COISA’
No Jornal Nacional, um vizinho de porta do ex-ministro, reagiu de maneira inusitada. “Mas era dinheiro? Pensei que fosse outra coisa”. Por outra coisa, pode se imaginar qualquer coisa. Entretanto, é de julgar que a montanha de cédulas encontradas em caixas e malas, que fez com que a Polícia Federal utilizasse máquinas de contar dinheiro e horas de trabalho de funcionárias para chegar ao valor total, seria suficiente para derrubar qualquer imaginação mais fértil.
Geddel Vieira Lima é um ‘Prático’ exemplar. Mesmo cercado por denúncias e gozando de prisão domiciliar sem tornozeleira – porque a Bahia ainda não dispõe do equipamento – ele foi capaz de seguir delinquindo, sem temer pelo Lobo ou pela queda de sua casa, erguida em estrutura sólida.
A CORRUPÇÃO VENCEU
O político baiano, aquele que, há exatos dois meses, chorou diante do juiz da 10ª Vara da Justiça Federal, ao ser comunicado que seguiria detido preventivamente e apelou pela prisão domiciliar, o que conseguiu, é a prova viva e irrefutável de que a corrupção venceu.
Ainda que surjam centenas de operações policiais que levem à prisão políticos corruptos, sempre surgirão outros. A prática é caudalosa e rende dividendos, ainda que o condenado tenha que amargar cinco ou seis anos atrás das grades.
MILHARES EM MILHÕES. MILHÕES EM BILHÕES
Há uma década, desde o Mensalão, o esquema do propinoduto consolidou-se no país. Não que a corrupção não existisse antes. Sempre existiu. Mas nunca foi tão profissional, tão meticulosa e tão voraz, a ponto de controlar o Estado. Os casos recentes falam por si: Dinheiro na Cueca, Aloprados do PT, Mensalão do DEM, Homem da Mala. Em casa caso, milhares transformaram-se em milhões e milhões transformaram-se em bilhões.
Tomando por base o propinoduto, que atravessa estados, partidos, empresas públicas e privadas e os três poderes da República, é até compreensível que Geddel Vieira Lima julgue que o que guardou no apartamento do amigo represente apenas uma pequena economia para o Natal que virá.
