quarta-feira, 22 abril, 2026
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Peter Ter Poorten radiografa prós e contras do Brexit

Peter Ter Poorten
Peter Ter Poorten

Peter Ter Poorten foi por duas décadas cônsul de Sua Majestade a Rainha Elizabeth II no Paraná. Antes, fora bancário, atuando no Banco de Londres em Curitiba. O mais importante é que ele é ainda a melhor referência que temos do Reino Unido entre nós.

Sendo um autêntico diplomata, dono de conhecimentos polivalentes, com raízes familiares no Reino Unido, Holanda e Austrália, Peter é cidadão do mundo equipadíssimo para responder às perguntas que este espaço lhe fez sobre o Brexit, a saída do RU da União Europeia. Leia a entrevista de quem entende do assunto:

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P – São muitas, ou não, as possibilidades de permanência do Reino Unidos na União Europeia?

R – Sim, é uma possibilidade. Pesam muito as aproximadamente 4 milhões, por enquanto, de assinaturas pró EU e várias manifestações que o mundo tem testemunhado. Entretanto quem vai decidir é o Parlamento num debate.

Também muitas pessoas que votaram pela saída estão começando a se arrepender.

P – Com o Brexit, quem ganhou e quem perdeu, afinal de contas?

R – Na presente situação não há nem perdedores nem ganhadores. Tudo ainda é muito vago. A EU está esperando que o RU notifique oficialmente a saída dele. Estão pressionando o RU para fazer isso quanto antes, com medo que outros também venham seguir o caminho do RU.

O Norte da Inglaterra é a parte mais industrializada, com a população mais velha, onde vivem os blue coller workers. Com a imigração aumentando, naturalmente eles estavam preocupados que esses imigrantes tomassem seus postos de trabalho. Temem muito a marginalização no mercado de trabalho. Essa é a palavra certa.

O Reino Unido não tem pressa porque os líderes dos 3 partidos (UKIP, Tories e Labour) renunciaram e novos dirigentes ainda não foram escolhidos, até hoje.

P – Os britânicos terão logo muitas limitações nos países da EU?

R – Naturalmente com a saída, os britânicos vão ter de se adaptar a novas regras, ainda não muito claras. Mas não vão poder trabalhar e viver na EU como antes. Pode ser que a EU e RU, em conjunto, venham a adotar regras especiais para esse problema. Isso é mais um fator que preocupa os britânicos, especialmente os mais jovens. Essa faixa de idade está vendo os antigos benefícios desaparecerem.

P – Afinal, o quê, de fato, levou ao Brexit?

bandeira-do-Reino-UnidoR – Na minha opinião 2 fatores importantes pesaram na decisão de sair do EU. Primeiro, os imigrantes (não refugiados) de outros países do Bloco, especialmente do Leste da Europa, que tiveram uma oportunidade de viver melhor estando no RU. Segundo, que muitos britânicos estão fartos de obedecer a tudo que a Bruxelas manda. Eles são contra a centralização total no Parlamento Europeu. Aliás, o RU sempre foi historicamente mais independente do que os outros países da Europa. O RU é uma ilha e esse fato contribui muito para os problemas e soluções do passado.

E há ainda os refugiados, um problema… que querem invadir a ilha.

Naturalmente os britânicos são contra as decisões do EU sobre o número de refugiados que o RU é obrigado a aceitar.

AMÉRICA LATINA

P – Do ponto de vista comercial, como o Brexit afeta a América Latina?

R – O assunto é ainda muito vago. O que se admite é que novos acordos comerciais terão que ser feitos com o Mercosul e também com países da AL, individualmente.

“…. muitos britânicos estão fartos de obedecer a tudo que a Bruxelas manda. Eles são contra a centralização total no Parlamento Europeu.
Aliás, o RU sempre foi historicamente mais independente do que os outros países da Europa.”

A AL vai analisar o que seria mais vantajoso, acordos comerciais com o RU (que continuará oferecendo muitas oportunidades comerciais, educacionais e técnicas), com a EU ou com os dois. O setor agrícola também vai decidir.

P – Que parte dos cidadãos do Reino Unido mais sofrerá com a saída?

R – A juventude se sente mais prejudicada com a saída. Pois terá dificuldades de trabalhar e viver na EU, menos oportunidades para estudar fora. Inclusive terá que solicitar um visto mesmo para viajar, embora eu acho pouco provável. Tudo isso dependerá também de o Reino Unido decidir se pessoas da EU dependerão de um visto para entrar no RU. Questão de reciprocidade.

P – Por que o Norte da Inglaterra apoiou tão fortemente o Brexit?

R – O Norte da Inglaterra é a parte mais industrializada, com a população mais velha, onde vivem os blue coller workers. Com a imigração aumentando, naturalmente eles estavam preocupados que esses imigrantes tomassem seus postos de trabalho. Temem muito a marginalização no mercado de trabalho. Essa é a palavra certa.

OS ACORDOS

1º Ministro David Cameron
1º Ministro David Cameron

P – Os grandes acordos culturais, científicos e educacionais do Brasil com o Reino Unido continuarão?

R – Sim, vão continuar, porque o RU continua a oferecer oportunidades para trocar experiências cientificas e educacionais com o Brasil. Isso independentemente se o RU está fora do EU.

Quanto às operações comerciais, novos acordos, mais específicos, terão que ser estudados.

P – Acredita que os países membros da Commonwealth sofrerão consequência do Brexit?

R – Na minha opinião, não muito, porque o comércio da Austrália, por exemplo, é mais focado nos países asiáticos. E outros membros do Commonwealth já têm um relacionamento com o RU e o EU separadamente. Pode ser que um ou outro país, dentro dos 54 membros, mude algumas regras. É difícil dizer. O certo é que um forte relacionamento especial com o RU continua a ser um fator importante.

P -Em quanto tempo se consumará a saída?

R – Alguns entendidos dizem que em 2 anos; outras opiniões dizem até 10 anos. Depende do novo Governo Britânico, do Parlamento Europeu e de quando o RU notificará o Bloco, oficialmente, da saída.

OS ALIADOS

bandeira-da-Comunidade-EuroP – O Brexit gerou problemas para aliados do Reino Unido?

R – Sim, o Brexit criou alguns problemas para a EU. A França nunca foi hostil ao RU, embora tenha criticado muitas decisões tomadas pelo RU. Mais do que Alemanha, que foi na maioria das vezes conciliadora e diplomática.

Ultimamente o eixo França-Alemanha tem se fortalecido, especialmente devido as negociações do Cameron com o Parlamento Europeu para obter mais benefícios para o RU.

Agora, a saída do RU está provocando um certo temor para a EU no sentido de dar chances para Eurocéticos da França (Le Pen) e Holanda (Geert Wilders) por exemplo, de advogarem também plebiscitos para uma possível saída da EU. França tem seus problemas sociais (novas regras trabalhistas propostas pelo Hollande e companhia); além da xenofobia, que sempre foi parte da cultura francesa, e até está aumentando com a crise imigratória.

P – A Escócia não está de acordo com a saída…

R – Outro problema grave! A Escócia perdeu a chance de ser independente tempos atrás (para delírio de Cameron) e agora existe uma real possibilidade de o país novamente realizar um referendum pelo fato que a maioria da população votou para ficar na EU. Agora, se a EU vai aceitar a Escócia como novo membro do Bloco é uma outra questão. A Primeira Ministra já falou que é a favor de um novo referendum.

DÚVIDA IRLANDESA

P – Irlanda do Norte é uma outra dúvida. Será que vai querer se unir com a República da Irlanda, a vizinha do Sul?

R – A parte da população católica, claro que sim; os protestantes também estão pensando na possibilidade, porque eles também querem ficar na EU. (imagine, o RU composto apenas 2, pelo País de Gales e Inglaterra?)

P – Pode estimar prejuízos que a saída gerará na economia britânica?

R – Difícil de responder! Quantificar prejuízos imediatos, com certeza não posso. Não tenho base para opinar. Só sei que o Bank of England tem reservas de mais de 250 bilhões de Libras como um buffer financeiro. Muito depende também das decisões de empresas (especialmente estrangeiras) e instituições financeiras. Elas irão se mudar para a EU ou não? Algumas já se mudaram para Dublin. O centro financeiro da EU, que está em Londres, poderá se mudar agora para Amsterdam, Milão, Frankfurt ou Dublin???

P – Quanto desemprego vai gerar isso?

R – Há mais perguntas do que respostas.

P – Há possibilidade de desintegração do bloco europeu?

R – A EU começou a virar um Bloco com o intuito de manter a paz entre seus membros e evitar novas guerras.

Depois vieram os acordos comerciais e sociais. Nesse momento de grandes dificuldades o que é mais necessário e urgente é uma maior integração entre os 27 países membros. Se isto não acontecer, o Bloco pode se desintegrar e, na minha opinião pessoal, isso seria um desastre!!!!

E esse perigo depois da saída do RU é real. Espero que o RU volte aos braços da EU.

Entretanto, sei que o RU sempre será um país Europeu; e sejam quais forem os acontecimentos futuros, o RU continuará a mesma ilha forte, como historicamente como sempre foi!!!

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