domingo, 19 abril, 2026
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Pessoa começa a decifrar a biblioteca de Roberto Campos

Roberto Campos
Roberto Campos

“Um Sr. Retrato de Bibliotecas; os livros que fizeram a cabeça do Roberto Campos”.

Este é o título da obra que o curitibano Carlos Alberto Pessoa escreverá em seguida a minuciosa pesquisa, “a amorosa pesquisa, a respeitosa pesquisa” – como ele a classifica -, no ‘santuário bibliográfico’ de um dos “gênios da raça”, santuário mui bem conservado e protegido pelos profissionais da Universidade Positivo.

Notório admirador da vida e obra de Campos, ministro do Planejamento do Governo Castello Branco, e que teve papel importante nos governos seguintes, reconhecido pela qualidade de suas teorias econômicas, Carlos Alberto Pessoa não poupa elogios à Universidade Positivo:

Carlos Alberto Pessoa
Carlos Alberto Pessoa

– A Positivo oportunamente, inteligentemente comprou o precioso acervo da família de Roberto Campos.

São o pouco menos de dez mil livros distribuídos em estantes duplas.

O acervo é essencialmente composto de livros de economia-política-história, alguma filosofia (a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, edição bilíngue, é o destaque da secção), pouquinho de literatura; o gosto do Roberto Campos nesta área era pra lá de discutível; há mais de um Harold Robbins na sua não tão seleta estante.

LATIM E SANIDADE

São Tomás de Aquino
São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino, dizem os que bem conheceram Campos, foi uma das paixões do intelectual que se concentrou em temas econômicos. Esse viés decorreu dos longos anos de estudos que Roberto Campos dedicou à Filosofia e Teologia, em seminário católico, onde se preparou para o sacerdócio. Foi aluno brilhante nos bancos eclesiásticos.

Não perdeu a fé, ao deixar o seminário e desistir da carreira eclesiástica. Na verdade, teria sido sempre – desde o seminário chamado de Menor – um questionador da determinação de celibato obrigatório aos padres. E as solicitações da carne o teriam levado a assumir “a natureza humana, em busca de companheira”, diz um velho bispo emérito, que conheceu bem Campos.

Esse mesmo bispo me lembrou uma declaração de Roberto Campos interessantíssima: ele costumava dizer que rezava todas as manhãs o Pai Nosso e a Ave Maria em latim.

“Assim conferia a sua lucidez, tirava dúvidas sobre eventual caduquice”, observou-me o prelado.

AQUILO QUE NÃO LEU

E dicionários! A quantidade de dicionários é incrível, segundo ainda Pessoa. E a quantidade de dicionários de citações é quase tão incrível.

A brasiliana do Roberto Campos, na opinião do escritor Pessoa é modesta, ‘pra usar termo diplomático’.

Garante Pessoa que o número de obras não lidas é bem maior que as lidas (e anotadas); leu Celso Furtado; e anotou com caligrafia críptica; não leu Olavo de Carvalho “nem o seu querido amigo José Guilherme Merquior”.

Nessa amostra grátis do trabalho que nos reserva, Pessoa completa as observações iniciais:

– Enfim, é uma viagem cheia de surpresas, viagem agradabilíssima, inspirada no antológico livro do esquecido Eduardo Frieiro – “O Diabo na Livra tria do Cônego”, sobre a biblioteca de um padre à época da inconfidência mineira, no início do século XVIII; ela era maciçamente herética.

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