sexta-feira, 8 maio, 2026
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PAULO POLZONOFF JR. “MATA” LUIZ INÁCIO EM LIVRO

Dono de uma pena ácida, o jornalista e escritor Paulo Polzonoff Jr. fez barulho na imprensa escrita curitibana. Era o editor do Espaço 2, do “Jornal do Estado”, e nele fazia longas digressões. Em pouco tempo atraiu a antipatia da comunidade cultural de Curitiba. O perfil era o de uma metralhadora giratória. Mas poupava misericordiosamente alguns poucos. Não sem antes esmagar em suas testas uma bola de sorvete de casquinha.

96-livro inclinadoFÃ DE ALLEN

Na literatura, Polzonoff idolatrava Dalton Trevisan. Quase abordou o escritor certa vez, em um café. No cinema, era um fiel seguidor de Woody Allen. Podia falar de cada filme do cineasta norte-americano em duas mil palavras. E, acredite, ele fazia isso. Era tão prolífico que Luiz Geraldo Mazza, sempre dado a carimbos, o chamou de “Paulo Francis de Curitiba”. Ele ficou lisonjeado, claro.

Com tanto talento, ele certamente estaria hoje em Nova York (em cana!).

Morou, de fato, por lá algum tempo. Depois foi ao Rio e, sabe-se agora, voltou à capital paranaense sem fazer muito barulho. Recentemente, lançou o livro “O Homem Que Matou Luiz Inácio”, um exercício de imaginação, alerte-se previamente, que narra as peripécias de Ernesto Unslovt, um homem de 35 anos, que, prestes a cometer suicídio, decide fazer coisa melhor: assassinar Luiz Inácio.

SÁTIRA CRUEL

Lançado em e-book pela Amazon e depois pelo Clube dos Autores, em versão impressa, o livro provocou reações, não da esquerda poodle, sempre disposta a reagir contra as blasfêmias ao “timoneiro” (Lula não é nominado), mas da direita capenga, mimetizada e encarnada em Unslovt.

Há algo de desesperador, sem dúvida, nas manifestações convocadas pelas centrais sindicais e na visão famélica de camisas vermelhas, despudoramente sem convicção, agitando bandeiras ou bradando palavras de ordem. Mas essa percepção, e é disso que trata Polzonoff com toda a carga satírica a que tem direito, também pode ser testemunhada entre os manifestantes verde-amarelos. Aqueles que vestem a camisa da seleção brasileira e saem com a família para um passeio dominical e uma selfie, embalados na marchinha “Eu te amo, Sérgio Moro, eu te amo (Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil)”.

MUNDO OBSCURO

Andando entre a multidão, Ernesto Unslovt (o nome de família é propositadamente cômico) vê em seu entorno, não apenas aqueles que defendem o impeachment, mas também membros de seitas tenebrosas, defensores da intervenção militar e de um mundo tão obscuro quanto pode ser obscuro o mundo.

Trata-se de uma sátira política tão boa que a ditadura, e um naco dos manifestantes retratados no livro, adoraria censurá-la. Quanto a Lula, ele certamente riria muito do livro. Caso lesse algum.

A AUTOFAGIA NOSSA DE CADA DIA

Falando em Paulo Polzonoff Jr. (vide nota acima), pergunta-se, frequentemente, talvez menos do que seria necessário, por que talentos jornalísticos, de estilo próprio, acabam sobrevivendo apenas à custa de garrafas jogadas ao mar. Ora, a explicação está no fim dos jornais em Curitiba e no Paraná, numa dimensão sem paralelo em qualquer outra capital do país. A sina do mau jornalismo nos esmagou. A autofagia também.

Mais cruéis e mais ressentidos, ex-repórteres da Gazeta do Povo, que recentemente fechou as portas ao impresso, diziam que havia dois lemas no jornal. Quando deixava de publicar uma matéria: “Não me venha com notícia”. Quando publicava: “Lapso de jornalismo”.

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