
Em 1967, o governador Paulo Pimentel recebeu comunicado urgente no Palácio Iguaçu. Deveria comparecer a Brasília naquele dia para uma audiência com o Ministro do Exército, general Costa e Silva. Pimentel não conhecia o general e era desafeto declarado de Ernesto Geisel, comandante da Casa Militar do então presidente Castello Branco.
Os dois haviam sido amigos. Geisel servira na 5ª Região Militar, em Curitiba, durante o governo de Ney Braga (1961-1965), costumavam jantar às quartas-feiras em Santa Felicidade. Geisel não tivera uma vida fácil. Casara com uma prima contra a vontade da família e tivera percalços na carreira militar. Era um triste na melhor definição rodrigueana. Ney o socorrera em momentos de dificuldade financeira. Jaime Canet Jr. dera a ele uma casa em Campos do Jordão para que vivesse com a família. Pimentel era o ombro amigo.
Houve a convocação. Paulo Pimentel seguiu no avião logo depois do almoço. Ao desembarcar, em Brasília, topou com oficial fardado do Exército e outro, à paisana, encaminhado pela presidência. Preferiu seguir a patente mais alta, deixando acertada a sua ida para o Ministério do Exército logo em seguida.
ENCRENCA À VISTA
No gabinete do presidente Castello Branco encontrou também Ernesto Geisel e o general Golbery do Couto e Silva, o “mago da revolução”. Previu uma encrenca. E era, de fato. De pronto, foi inquirido sobre a razão que o levara a Brasília. Queriam saber detalhes do encontro que teria com Costa e Silva. Pior. Indagaram o que estava tramando.
Pimentel só contava com sua esperteza. Disse que havia sido convocado por Costa e Silva. Ele nem o conhecia. “Vim porque sou governador do Paraná e, para se franco, nos estados quem manda mais é o comandante da Região Militar, manda prender, manda soltar. O governador não manda nada”.
Se já havia algum mal estar, ele piorou.
ESCULHAMBADO
Pimentel diz que Geisel o esculhambou. Os três viraram seus inimigos naquele dia. Castello Branco, a princípio, ordenou que ele não fosse ao encontro. Depois, antevendo as consequências de uma contraordem, mandou que ele seguisse seu roteiro.
Chegou ao Ministério do Exército com atraso de duas horas. Mário Andreazza abriu-lhe a porta do gabinete. Deu de cara com o general Emílio Garrastazu Médici e com o próprio Costa e Silva que, àquela hora, bebericava um uísque. Ofereceu um copo a ele. Pimentel pensou: “Se eu tomar uísque aqui vou falar besteira”.
MISSÃO VICE
Costa e Silva foi curto e, talvez, grosseiro: “O Castello quer o Ney presidente, o Geisel quer o Ney presidente. Eu serei o presidente. Então o senhor pegue o avião e vá se encontrar com o Ney no Jardim Botânico, no Rio. Convença-o a ser o vice”.
Lá foi Pimentel. Ao encontrar o ex-governador nem mesmo se preocupou com a formalidade do aperto de mão. Foi logo dizendo: “Ney, você será candidato a vice e voltará como presidente civil. Você será presidente, Ney”. Ele respondeu-lhe com impropérios. Incluiu a palavra traidor. Bastou. Que se danassem.
NADA DEIXO, NÃO ME QUEIXO
Meia hora depois, naquele dia, o civil Pedro Aleixo era anunciado como vice na chapa de Costa e Silva ao Colégio Eleitoral. Empossado em 15 de março de 1968, Costa e Silva governou até agosto de 1969, quando se afastou para o tratamento de uma doença que o levaria à morte em dezembro daquele ano.
Aleixo não assumiu porque era um civil. Declinou o convite, antes mesmo que ele fosse feito, em mensagem singela que entrou para a história: “Nada fiz, nada quis, nada deixo; não me queixo; assinado, Pedro Aleixo”.
PRESIDENTE DE GRAÇA
Décadas depois, com ambos integrando o Conselho Administrativo da Copel, Paulo Pimentel quis saber de Ney Braga por que, afinal, ele recusara a vice-presidência de Costa e Silva. Ney baixou a cabeça, pensativo, e depois de alguns instantes, disse: “Fiz besteira. Achava que tudo o que você me falasse, seria prejudicial. Hoje admito: eu seria presidente de graça”.
