segunda-feira, 27 julho, 2026
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PASTORA, MÉDIUM E UM PADRE DOMINAM A CENA POLICIAL  DO PAÍS (PARTE I)

Errática sob ótica do legal, certa pregação eivada de charlatanismo religioso é, no entanto, bem acatada por todas as classes sociais no país. Os pobres são os maiores contribuintes de algumas redes que extraem das massas  muitos votos e dinheiro.

 

E assim crescem em  poder político e empresarial, prometendo “intimidade com Deus”, de preferência acompanhada de supostos milagres

Pastora Flordelis, médium João de Deus e padre Robson

Uma revista semanal está em cima da notícia de grande impacto dos últimos dias, decodificando-a amplamente. Anuncia detalhada abordagem de três grandes “guias espirituais” que estão em confronto com a ética, a justiça e, especialmente, com os princípios básicos do cristianismo.

Tais líderes são enormes pedras de escândalos num país de povo basicamente ingênuo, simples, em busca  esperança e de  salvadores… Esses religiosos carismáticos, apontados agora como supostos criminosos, são: o médium João De Deus (espírita, que reinava absoluto em Abadiândia, Goiás, com trânsito internacional), padre Robson Gonçalves, o todo poderoso comandante da rede de comunicação e do movimento católico denominado Filhos do Pai Eterno (em Trindade, também Goiás), e a pastora, dona de uma igreja que acaba de mudar de nome, localizada no RJ, acusada de ter matado o filho adotivo, pastor Anderson, com quem – incrível – estava casada -, tudo com apoio de filhos biológicos e adotivos, além de uma neta.

Só o casamento de Flordelis com um filho adotivo já é de todo condenável: caracteriza incesto. Isso  além dela ter roubado esse marido de uma filha também adotiva. Aliás, Flordelis já teve vários casamentos, prova de que, de alguma forma, não controla bem  emoções pastorais e familiares.

ENVENENADO

Anderson, o  pastor assassinado, esclareça-se, vinha sofrendo lento e gradual envenenamento, pelo qual foi hospitalizado 6 vezes em São Gonçalo, RJ.  Tudo obra da “gangue” da pastora que goza de imunidades parlamentares, acusada também de oferecer filhas adotivas para encontros sexuais com pastores estrangeiros, segundo O Globo. Por trás de tudo, prevalece a corrida em busca de poder terreno e dinheiro…

Segundo noticiário abalizado, a pastora-deputada criava todo o clima para o exercício da pansexualidade naquele ambiente eclesiástico, incluindo nele  menores de idade, outro crime. No mundo imediato da pastora estão 55 filhos (biológicos, adotados e socioafetivos).

NOSSAS MATRIZES

O Brasil nasceu com a Igreja Católica, o que Porto Seguro, a cidade baiana onde se celebrou a primeira missa, nos lembra sempre.  Ela ufana-se  de “existir antes do Brasil”, conforme seu lema, em latim. A Igreja romana, sob o regime do Padroado, ficou a serviço do poder instituído até o fim do Império, e basicamente trabalhando para os senhores  donos da terra e os comandantes da política e politicagem.

A Igreja perdeu o Padroado, a partir da República, mas não o poder. Com Getúlio Vargas, cresceu de novo  em benesses e capilaridade, tendo como artífice dessa expansão o cardeal  Leme.

Certo que isso não foi nada bom para a Igreja Católica, que, no entanto, compensou sua “morna” evangelização (muito santo e forte religiosidade popular,  e pouco Evangelho), ao exercer seu papel de educadora.

EDUCAÇÃO COMPENSOU

Os colégios católicos, femeninos e masculinos pontilharam o Brasil a partir da metade do século 19. Lembram-se do Des Oiseaux e Sion, atendendo às famílias ricas e poderosas em SP? Ou o Santo Ignácio, do Rio, e São Bento,  da mesma cidade, e o Santa Cruz e Arquidiocesano em São Paulo?

Como negar a influência dos jesuítas e das sólidas ordens religiosas na montagem de notáveis de escolas no país todo? Os beneditinos e franciscanos estão nessa cadeia de grandes  mestres. Querem outro exemplo? Cito o seminário do Caraça, em Minas Gerais, centro formador de uma elite política e cultural, por onde passou Juscelino Kubitscheck.

O Caraça foi criado e mantido pela Congregação da Missão (ou Padres Vicentinos), também conhecida como Congregação dos  Padres Lazaristas.

IGREJA ESCRAVOCRATA

O histórico da Igreja Católica no Brasil não lhe dá o atestado de “inocente”: teve escravos, não se empenhou por ações antiescravagistas, ficou quase sempre ao lado dos donos do poder,  da violência de aparelhos de repressão, confundiu-se com os  poderosos de todos os naipes. Para tanto, recebia salários do poder político controlado pelos senhores da terra e dos núcleos urbanos., dos governos de todos os graus.

Também não foram poucos os pecados sexuais de membros do clero da Igreja desde o Brasil Colonial. Havia menos pedofilia do que hoje – como observam antropólogos -, mas o clero vivia vida dissoluta, pansexual, especialmente no chamado “clero secular”. Mesmo assim, as pontes montadas pela Igreja deram frutos, especialmente notáveis em suas escolas de todos os níveis.

ORAÇÃO DE TRAFICANTES

Um dos livros mais interessantes à disposição de quem quiser entender parte do fenômeno pentecostal brasileiro, é “Oração de Traficante”, de Christina Vidal da Cunha, professora pesquisadora da Universidade
Federal Fluminense (UFF). Ela viveu anos em favelas, captando a metamorfose de pertencimento religioso que ocorre  nas comunidades (favelas) cariocas.

No centro de tudo estão movimentos pentecostais e as muitas variáveis que apresentam, especialmente com mini-igrejas. Certo que a Igreja Católica e as religiões de matrizes afro-brasileiras não se deram conta do avanço pentecostal, das igrejas de grande porte, como as muitas ramificações da Assembleia de Deus, muito menos avaliaram o poder de fogo das mini-igrejas que se multiplicam impressionantemente.

Antropólogos acham que o pentecostalismo veio para ficar, especialmente nas camadas de estratos sociais mais baixos da população, com as quais estabeleceu uma comunicação fácil e agora até faz concessões em questões antes inegociáveis, como as que envolvem costumes.

CRENTES &  BANDIDOS

A pesquisadora Christina Cunha detalha como a onda crente substituiu símbolos católicos  e suas tradições:  São Jorge e a Virgem Maria, dando lugar, em muros, a escritos  com salmos e citações bíblicas. Mostra que  os novos crentes comandam hoje as ações de grandes quadrilhas do tráfego. Matam, roubam, e viciam a população pobre, “em nome de Jesus”, diz a autora. Isso além de comandarem milícias que fazem tudo “em nome de Jesus”.

Claro que esse comportamento é apenas parte de um retrato do protestantismo brasileiro, nascido sob o signo  de salutar  renovação religiosa, geradora de missionários santos vindos do exterior e pastores brasileiros que se tornaram paradigmáticos de um processo de renovação religiosa.

Essa renovação foi particularmente identificada a partir da metade do século 19. (CONTINUARÁ)

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