quinta-feira, 19 fevereiro, 2026
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Os herdeiros, os religiosos, os grandes derrotados (final da série)

Cida Borguetti, Ricardo Barros e filha, Victória
Cida Borguetti, Ricardo Barros e filha, Victoria

As eleições de domingo, 5, no Paraná, revelaram muito mais do que a derrota de antigos políticos profissionais (como Rafael Waldomiro Greca de Macedo, Caito Quintana, Pugliesi, Reinhold Stephanes e André Zacharow, por exemplo); e a ascensão, em grande número, de novas cabeças coroadas, os herdeiros, aqueles que vão seguindo as pisadas dos pais no legislativo.

As urnas reservaram surpresas para o observador político, algumas das quais o leitor verá a seguir:

De meu observatório dos resultados das urnas, por primeiro impressiona-me o papel que mulheres vão assumindo na política do Paraná. Duas delas é obrigatório ressaltar: Cida Borghetti e Fernanda Richa.

2 – CIDA VIVEU A CAMPANHA

Cida, eleita vice-governadora, praticamente ombreou com Beto numa insistente e frutífera campanha. Subiu em palanques, visitou quase todos os municípios do Estado, fez-se presente em variado número de entidades da chamada “sociedade civil organizada”, às vezes parecia ser ubíqua (estar em mais de um lugar ao mesmo tempo).

Na verdade, pela primeira vez vi alguém, candidato à Vice-Governança, assumindo papel tão claramente ativo, com mangas arregaçadas, fazendo o chamado corpo a corpo, não fugindo do debate, rebatendo críticas e traduzindo o programa de Beto Richa.

O charme e beleza física notável foram grandes aliados de Cida, mulher que nasceu profissionalmente atuando em estúdios de TV, agência de propaganda e em campanhas políticas.

A filha dela e de Ricardo Barros, a neo-deputada estadual Maria Victoria Borghetti Barros, belíssima, é muito mais do que um rosto bonito: bem equipada culturalmente, tudo indica que seguirá os passos do pai e da mãe.

3 – FERNANDA: A MULTIPLICADORA

Fernanda Richa, por seu turno, sem jamais ter-se conformado com a posição de “primeira dama do Estado”, foi a mulher dos contatos políticos permanentes.

Antecipou-se ao período eleitoral atual; na verdade, fez política, desde o primeiro dia em que Beto, seu marido, assumiu a Prefeitura de Curitiba, e, depois, como secretária da área social do Governo do Paraná, atendeu aos reclamos básicos de comunidades carentes. Sempre unindo visão política pensando em votos à ação tecnicamente justificada.

Fernanda é conhecida pela insistência com que “vai à luta”, especialmente em busca de lideranças, em bairros de Curitiba, nas periferias mais distantes, encontrando multiplicadores de opinião que a ajudem a carregar suas bandeiras.

4 – HERMÍNIA E FANY

Algumas mulheres dos governantes do Paraná de outrora tiveram papel capital na administração pública. Caso exemplar foi de dona Hermínia Lupion, que não apenas esteve ao lado de grandes projetos sociais de Moysés Lupion. Ela exerceu uma ação importantíssima na ligação do governo com o incipiente mundo universitário dos anos 1950. A Casa do Estudante Universitário (CEU), por exemplo, a escolheu como madrinha. Era amada e respeitada pelos estudantes.

Mais proximamente, não há como esquecer a importância que Fany Lerner assumiu ao lado de Jaime; primeiro, na Prefeitura de Curitiba, comandando um grande programa de voluntariado que se desdobrou em trabalhos inigualáveis, como a implantação de creches, o Vale Creche, a Multissopa.

Carismática, uma agregadora por natureza, Fany resistiu até quanto pôde suportar as dores do câncer, à frente da Secretaria Estadual da Criança. E lá implantou uma obra, para dizer no mínimo, impressionante.

O que se pode dizer é que Fany estava acima do bem e do mal, era uma unanimidade na vida pública.

5 – FALTAM ASTROS

Paulo Rink
Paulo Rink

As eleições de domingo, no Paraná, não tiveram grandes astros, bem o contrário do Rio e São Paulo, com Romário (Senado), Tiririca e Lecí Brandão, dentre outros de expressão midiática.

Aqui tivemos, quando muito, um jogador de futebol – Paulo Rink – que chegou a defender a seleção alemã, anos atrás (tem dupla cidadania) e recorreu a um jogador da atual seleção “deutschen” pedindo votos pró Rink.

Mesmo assim, rodou.

Quem não rodou foi a cantora Mara Lima, estrela ligada à Assembleia de Deus, eleita pelo PSDB deputada estadual. Deu ênfase à sua atuação de cantora gospel. Aliás, o gênero gospel de hoje, no Brasil, tende a sofrer transformações, como ocorreu nos Estados Unidos, onde tem enorme expressão um “gospel leigo” e basicamente comercial.

Mas não se iludam: embora a febre evangélica na política, dizer-se pastor ou pastora ou cantor (a) crente nem sempre significa passaporte para vencer nas urnas.

Foi o que aconteceu com a candidata à Câmara dos Deputados Pastora Marisa Lobo, que rodou fragorosamente (19 mil votos).

Também não se elegeu outro pastor, o Luiz Parola, que igualmente queria ir para Brasília.

6 – INIMIGO “DEDICADO”

Certo que Roberto Requião foi sempre apontado pelas pesquisas como o candidato ao governo com maior índice de rejeição. E isso, a rejeição em níveis como os de RR, quase sempre é fatal.

Mas também nem sempre se transformar em “inimigo dedicado” a um político – no caso, a Requião – foi garantia de boas colheitas de votos.

O exemplo significativo dessa situação foi o de José Domingos Scarpelini, que queria ir para a Câmara centrando sua pregação no anti-Requião.

E rodou, embora ele, Scarpelini, tenha longa quilometragem como ex-prefeito no Norte do Paraná e mesmo como ex-deputado estadual.

Pedro Guerra
Pedro Guerra

7 – FILHO DE EX-MINISTRO

Pedro Guerra é um jovem, na casa dos 30, filho do ex-ministro da Saúde Alceni Guerra. Ele chegou a ocupar a cadeira de deputado federal, ano passado, como suplente de Cida Borghetti. Mas não emplacou nas urnas, embora o apoio do pai.

Mesmo assim, Guerra fez quase a mesma a mesma votação de Rafael Greca, o veterano político, ex-prefeito de Curitiba.

Fernando Francisquini
Fernando Francisquini

E já que se fala em linhagens políticas, é bom registrar que João Arruda, sobrinho de Roberto Requião, ganhou direito de ficar mais quatro anos na Câmara, em Brasília. Conseguiu boa votação, 177 mil votos. Um dos que fizeram dobradinha com Arruda foi Luiz Carlos Martins (estadual).

Assim como se registre também: o deputado federal Fernando Francisquini obteve 160 mil votos para continuar com novo mandato. E seu apoio garantiu a eleição do filho, Felipe, à Assembleia Legislativa do Paraná. Esse jovem faz parte das cabeças coroadas, os que vão dando continuidade ao trabalho dos pais.

8 – ESTES RODARAM TAMBÉM

Kielse Filho
Kielse Filho

As urnas de domingo passado, 5, maltrataram alguns nomes que eram apontados como certos para formarem na bancada federal do Paraná. Dentre eles, o médico Rui Ohara, que dirigiu a COMEC; Antonio Carlos Belinati; Cheida, que foi secretário de Meio Ambiente de Richa; Luciana Rafaignin, histórico quadro do PT gerado em Foz; Chico da Princesa, Caíto Quintana (teve apenas 18 mil votos); Gilberto Martins (ex-secretário de Saúde no último governo Requião, que ganhou apenas 16 mil votos); Kielse Crisóstomo Filho, até então tido como “imbatível” por ter suposta grande base eleitoral na RMC; Waldir Pugliesi talvez tenha apresentado a derrota mais surpreendente, já que esse requianista histórico foi um ‘tradicional’ representante do PMDB de esquerda. Ou do “velho MDB de guerra”.

Os herdeiros, os religiosos, os grandes derrotados (primeira parte)

Os herdeiros, os religiosos, os grandes derrotados (segunda parte)

 

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