quarta-feira, 15 julho, 2026
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OPINIÃO DOS OUTROS: O PRIMEIRO FRUTO

O nascimento de Jesus acabou com o sossego na estrebaria de Belém. Os visitantes chegavam a todo o momento com presentes, olhares de espanto e contemplação. Eram pastores, agricultores, magos, pescadores, soldados, cobradores de impostos, comerciantes… Gente simples da vizinhança. Todos curiosos para ver aquele menino tão especial. Ao anoitecer, Maria estava exausta. Mesmo assim, atendia e recebia da melhor forma possível, todos que se aproximavam da manjedoura.

Evaristo de Miranda (*)

Em meio a tanta gente, Maria percebeu a figura de uma velha do lado de fora da estrebaria. Ela era toda curvada, muito feia, completamente enrugada, parecia ter mais de mil anos. Ela movia-se de um lado para o outro. E não entrava. Depois da meia noite, a velha continuava lá fora, como uma bruxa. Quando o último visitante finalmente deixou o local, a velha entrou na estrebaria sob o olhar desconfiado e até temeroso de José, do boi e do burro.

Hesitando, ela aproximou-se da Virgem e do Menino. Trazia nas mãos uma fruta bonita, perfumada e certamente muito saborosa. Maria nunca vira esse fruto. Ela entregou seu presente como se fosse o globo terrestre e balbuciou: “- Esse fruto, a humanidade quis comer verde lá no paraíso. Agora, está maduro”. Atrás das pregas das pálpebras, seus olhos encheram-se de lágrimas.

Maria acolheu o fruto em suas mãos, sem dizer uma só palavra. Logo a velha retirou-se, caminhando com dificuldade. Os primeiros clarões no horizonte anunciavam a chegada de um novo dia. Antes que ela saísse do estábulo, Maria lhe perguntou: “- Senhora, qual é o seu nome?” A velha deteve-se no limiar da porta. Retornou-se lentamente. E com ares de um imenso alívio e um sorriso sutil nos lábios, disse: – Eva.

EVARISTO DE MIRANDA, Natal, AD 2019

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