quinta-feira, 23 julho, 2026
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OPINIÃO DOS OUTROS: E daí? O que faremos? (parte final, II)

 

(foto: Annelize Tozetto)

Por Cleto de Assis (*)

NÃO PERCAMOS TEMPO…

Não percamos tempo em nos ater à lista de efeitos colaterais, graves e gravíssimos, dessas drogas ditas miraculosas por Trump, nos Estados Unidos, de Bolsonaro, no Brasil, e por Maduro, na Venezuela. Uma rápida visita à Internet ou orientação de um bom médico bastará para nos informar sobre a insegura prescrição. Mas é importante registrar que as informações e os alertas de Ujvari foram formulados, há mais de uma década, em harmonia a centenas de cientistas de todo o mundo. Mas, e daí? Aproprio-me dessa locução adverbial, já patenteada por gradas autoridades, para perguntar o que fazer neste tempo de insegurança, de extrema surpresa e de tantas exceções de modus vivendi. Como vivemos em um país onde a polaridade de opiniões impera desde os tempos coloniais, estamos hoje divididos entre pessimistas e otimistas. Considero-me sócio do segundo clube, pois não acredito em catástrofes anunciadas pelas já mencionadas cassandras. Sou fanático (não confundir com fundamentalista ou extremista) torcedor de novos e bons tempos. Firmo meu pensamento e minhas ações na crença de extremo aproveitamento destas férias impostas pelo isolamento social para refletir sobre o day after da pandemia, ou para a vida que deveremos refundar mesmo antes que ela acabe. Porque outras pandemias advirão, enquanto houver desequilíbrio na relação homem/natureza.

 

UM NOVO NORMAL

Atentos observadores já falam sobre o novo normal, ou seja, uma vida diversa da que estamos acostumados até o início de 2020, quando fomos empurrados para as prisões domésticas. Um novo tempo bastante auxiliado por determinados avanços tecnológicos e, principalmente, por mudanças essenciais de consciência e maior conhecimento de nossa biologia. Comecemos pelo meio ambiente, nome que se dá ao mundo que nos cerca e que tratamos, até agora, como nosso quintal absoluto, e dele fazemos o que nos dá na telha. Sempre atuamos como protagonistas da História, reis da natureza, entronizados no pináculo da pirâmide biológica: todo o restante a nossos pés, a serviço de nossa sobrevivência. A pandemia atual nos mostra que não é bem assim. São mais poderosos que nós os invisíveis habitantes do microcosmos, caroneiros do nosso organismo, que não pedem licença nem pagam passagem para andar por aí. Basta a nossa inconsciência biológica para ajudá-los a se difundir. Alguns amigos acham que essa nova consciência biológica demorará para ser estendida.

 

REPULSA DOS NOVOS

Discordo. Há uma nova geração, à qual o conhecimento e os maus exemplos dos mais antigos já se expressam em salutar compreensão da vida, que começa essa revolução silenciosa e eficaz. Baseio-me em Mariah, minha neta, que, em seus pouco menos de vinte anos, definiu seu regime alimentar na repulsa à matança de animais para prover a mesa de refeições. Há milhares, talvez milhões de pessoas, em todo o mundo, a predicar o respeito à natureza e a mudança de hábitos alimentares que, além de exaurir a capacidade de produção da terra e dos oceanos, ampliam os vetores de transmissão de enfermidades, desde a adoção da agricultura pela humanidade.

 

REPÚBLICA, EM TEORIA

A essa nova relação com o meio ambiente juntaremos a maior compreensão sobre democracia, entendida como regime político comandado pelo povo, ou, na visão quase poética de Abraham Lincoln, “o governo do povo, pelo povo, para o povo.” Iniciemos por nosso país, que se redefiniu pelo regime democrático e republicano como o melhor caminho para nossa organização social, em 1998. Teoricamente, somos uma república onde “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente…” (parágrafo único do Art. 1º da Constituição Federal). Para tanto, nós, o povo, fomos contemplados com alguns instrumentos que possibilitam (e nem sempre facilitam) essa participação: voto, plebiscito, referendo e iniciativa popular, este último como caminho para propor leis. Essas alternativas acabam por ser utilizadas por uma parcela popular seletiva, uma vez que grande parte da sociedade brasileira permanece como espectadora, sem a compreensão de seu próprio poder, e exerce o primeiro direito da participação – o voto – ainda de modo irrefletido e muitas vezes com péssimas consequências.

 

ASSIM SE COMPORTAM…

A república participativa começará a andar quando firmarmos nossas ações políticas no entendimento que a república representativa, formada pelos escrutínios populares, deve ser comandada pela primeira. Os eleitos não são soberanos ou desligados da intenção do voto, mas deveriam se comportar como executores da vontade popular que os elegeu. Servidores públicos, para melhor entendimento. O voto não é um cheque em branco que se firma em benefício do cidadão eleito e dos grupos escusos para os quais passa a servir. E que, por meio dele, se apropria do poder de, no trabalho parlamentar, votar até mesmo pelo aumento de seus subsídios financeiros ou para reprimir os níveis do salário mínimo.

Devemos, no novo normal, ampliar essa consciência política e passar a exercer com maior autoridade e assertividade a dinâmica participativa. Aos governos, em todos os níveis, serão reservados a tributação equilibrada e sua aplicação no planejamento de ações coletivas, tais como a provisão de infraestrutura para o desenvolvimento social, a começar pela humanização das favelas, onde pessoas são colocadas distantes da mínima dignidade, num isolamento social inaugurado há décadas; a responsabilidade pela manutenção da segurança social, manutenção das forças armadas, como guardiãs da Constituição; o planejamento e instrumentação da saúde pública, com ênfase na medicina preventiva.

 

SETOR EDUCACIONAL

Um destaque para o setor educacional: nenhum, governo eleito deve ter comando pelo conteúdo educacional da sociedade que o elegeu, pois essas ações governamentais, sempre edificadas no embalo de decisões políticas dos partidos que comandam, sempre provisoriamente, os governos, muitas vezes, ou quase sempre, desrespeitam as múltiplas visões que podem ser adotadas positivamente pela sociedade. Esse desrespeito se denuncia na fragilidade, por exemplo, das normas que regem a formação e o salário de professores, impostas pelos governantes. Basta que nos garantam a construções de escolas em locais onde são necessárias e deixem os métodos e conteúdos educacionais a cargo dos conselhos escolares e das famílias que os compõem. E nossas universidades deverão promover maior interação entre elas, com maior capacidade de produção de pesquisas úteis ao desenvolvimento social. Cito, como exemplo vergonhoso, nossa atual dependência ao mercado mundial na produção de equipamentos médicos e de medicamentos.

 

ISOLAMENTO ENSINA

Abriremos o novo normal – até porque muito aprendemos, nesse isolamento forçado – com maior compreensão do consumismo exagerado, inútil e predatório, cujo maior vetor, a propaganda, terá que diminuir sua influência sobre as vontades e as decisões das pessoas.

Em relação à estrutura dos demais poderes da república, já que, anteriormente, nos referimos a eventos dos poderes executivos, prevê-se como necessários 1. a estruturação do poder judiciário pela permanência dos atuais concursos, mas com maior rigor, para as instâncias inferiores e eleição para os tribunais superiores, hoje engalanados pela falsa sensação de separação, mas sempre dependentes da vontade de um único indivíduo. Imaginamos o Congresso Nacional, formado por presuntivos representantes populares, com maior aproximação com os eleitores, a partir da adoção de mecanismos como o voto distrital e uso das tecnologias de comunicação e informação, com as quais os quatro instrumentos reservados constitucionalmente à participação popular poderão ser utilizados mais constantemente, sem enormes previsões orçamentárias para sua aplicação.

 

Brasil em Crise

RELAÇÕES DE TRABALHO

No novo normal mudarão as relações de trabalho. Nossas leis, frente aos avanços tecnológicos, já se encontram enfaixadas pelo obsoletismo mumificante. Não se tratará mais da antiga polêmica entre capitalismo e socialismo, mas a premissa primeira será o bem-estar das pessoas, que poderão exercer seus labores de forma menos estressante. O termo office home, literalmente traduzido como escritório doméstico, será substituído por denominação mais condizente, pois o trabalho feito fora das sedes empresariais não é apenas sedentário. A terceirização será mais bem aplicada, ampliando o número das chamadas startups, ou empresas iniciantes, com grande potencial de sucesso, em substituição da produção em grande escala de determinados produtos.

 

REVISAR AGRICULTURA

Até mesmo podemos propor reforma na administração penitenciária, com a inclusão de trabalho terceirizado nos presídios, capaz de ajudar no financiamento e manutenção do sistema penal e providenciar métodos eficazes de reinserção social para os apenados. Mais um bom número de transformações na vida industrial e mercantil pode ser visualizado. A agricultura deverá ser revisada, a partir de maior equilíbrio com o meio ambiente, por meio de maior seletividade e adequadas produção e distribuição de alimentos. Os abalos na economia deverão ser rapidamente superados, pois a produção de alimentos, embora tenha diminuído por razões climáticas, voltará a reabastecer o país e a garantir nossas exportações. As indústrias rapidamente se recuperarão, uma vez que os bens de consumo voltarão a ter demanda normal. Com isso, os empregos ressurgirão, mas se voltarão também para novas opções e habilidades, para as quais será imprescindível a formação correta.

 

O REI DAS CIDADES

Além disso tudo, os novos tempos assumirão novas atitudes, como no âmbito da mobilidade urbana, na qual o veículo automotor é rei e as cidades continuam a ser planejadas com enormes desajustes e prejuízos para a convivência humana. Coloquemos no carrinho de compras, também retirados da gôndola da urbanização, a coleta e o tratamento de resíduos, calamidades de nosso velho tempo e igualmente vetor para a difusão de enfermidades e ampliação do desperdício de recursos naturais. E a associação de ideias nos traz à mente o grande problema da água, cuja administração não é feita adequadamente já a partir dos consumidores.

 

SOLIDARIEDADE QUE FICA

Fiquemos por aqui. Não quero transmitir cansaço ou desesperança com este texto que já se torna longo. Mas preciso fazer menção honrosa, como último capítulo, ao sentimento de solidariedade que parece ter se consolidado mundialmente como principal efeito positivo desta pandemia. Nunca houve, na história, sentimento igual que unisse praticamente todos os habitantes do planeta (à exceção de sociopatas incuráveis, felizmente em menor número) e nos desse a esperança de implantar, definitivamente, os melhores princípios de convivência humana. E não se trata de uma solidariedade surgida por puro instinto de sobrevivência pessoal, mas de um sentimento que revela a possibilidade de renascimento de uma grande empatia interpessoal, esta, sim, capaz de produzir milagres. Por meio dessa nova solidariedade emergente poderemos nos curar da má educação adotada por continuados erros governamentais, da falta de saúde preventiva, da péssima distribuição de riquezas produzidas pelo desequilibrado trato com a natureza e pela ganância desmesurada. Em síntese, da distorcida consciência de nosso relacionamento com a vida.

 

(*) CLETO DE ASSIS, professor, tradutor, comunicador, artista plástico; foi diretor do MEC e secretário de Comunicação no segundo Governo Ney Braga.

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