
Por Antenor Demeterco Jr. (*)
O líder polonês Lech Walesa, homem que conheceu a brutalidade do socialismo radical, ao visitar Brasília, disse ao então presidente Fernando Henrique, que nossa capital parecia uma cidade comunista feita por um capitalista ou por alguém que vivia no capitalismo.
Walesa sequer sabia de Niemeyer, e muito menos que ele fosse o comunista boa vida que foi (diários do ex-presidente 1995-1996, p. 73). A influência de Le Corbusier (1887-1965) e suas ideias, o conhecido arquiteto franco-suíço assim apelidado, na idealização da cidade é reconhecida. Le Corbusier foi militante fascista, ligado ao regime colaboracionista francês e simpatizante do nazismo, como revelam certos escritores. A cidade para quem a visita ligeiramente é intrigante, às vezes lembrando um grande acampamento, de ser algo pouco brasileira.
APENAS ARROUBO
O ministro Abraham Weintraub em arroubo oratório proferido em vídeo ora em voga, investiu contra a cidade, não no seu aspecto material, mas em relação a autoridades que ali tem assento. Brasília seria ‘pior’ do que ele imaginava, por perder a relação com o povo. Realmente, a cidade ficou isolada da barulheira política do Rio de Janeiro, onde havia o imediatismo do contato e a resposta popular a atos governamentais. O grande disparate do ministro foi se referir a magistrados como sendo “vagabundos’ merecedores de prisão. Fez péssimo papel com a arenga, transformando-se em estrela da reunião, mas não atentou contra a Democracia brasileira como querem alguns.
Mais deplorável que a sua fala é que milhões de brasileiros pensam de modo igual. Aí está o atentado à Democracia, ou seja, no desconceito generalizado de autoridades dos Poderes da República. Mereça ou não crédito este desconceito.
INDIVÍDUO E FUNÇÃO
Hoje, com imprensa em absoluta liberdade, o povo apreendeu a separar o indivíduo da função que exerce. O grande escritor francês Gustavo Le Bon (1841-1931) em seu pequeno grande livro de 1895 (“Psicologia das Multidões “, p 108) já alertava ao abordar o prestígio das pessoas: “Só pelo fato do indivíduo ocupar uma certa posição, possuir uma boa fortuna ou estar carregado de títulos nobiliárquicos, tem prestígio, ainda que o seu valor pessoal seja nulo”. Homens públicos que administram ou julgam são julgados, e encontram às vezes desavizados que dizem coisas que deveriam manter em seus pensamentos. É uma pena que milhões de cidadãos não tem opiniões diferentes a respeito do momento nacional.
Curitiba Anno Domini de 2020, 27 de maio.
(*) ANTENOR DEMETERCO JR, desembargador, advogado, especialista em Direito do Século 20.
