Paulino Motter (*)

Em outra ocasião, avisei a ele que na rua Tarobá, numa árvore bem em frente ao restaurante Cheiro Verde, tinha o que me parecia ser uma colmeia de Jataí. Tonelli foi ao local apenas para constatar que de abelha eu não entendia nada. A colméia no tronco da árvore era de outra subespécie, que não produzia mel com a qualidade da Jataí.
Depois que já havia me mudado para Madri, soube que suas colmeias de abelha, instaladas no matinho atrás da sua casa, localizada ao final da rua Suindara, às margens do arroio Jupirá, foram dizimadas pelas equipes de combate à dengue da prefeitura. O “fumacê” aplicado se mostrou mais eficaz para matar as abelhas do Tonelli do que o mosquito transmissor.
Uma vez em que apareci sem avisar na sua sala, na DC, ele estava saboreando uma frutinha que eu não via desde que havia saído de Brasília: Ciriguela. Indaguei onde ele havia conseguido aquela apreciada fruta e se espantou com a minha ignorância. Disse que havia plantas de Ciriguela espalhadas por toda cidade, inclusive no pomar logo atrás da DC, onde ele havia acabado de colher os frutos maduros que agora eu compartilhava.
Tonelli fez questão de me levar até os três pés carregados de Ciriguela, que passei a visitar com certa regularidade, até o fim da temporada. Eu tinha para mim que era uma planta típica do Cerrado e da Caatinga. Fui verificar depois que isso era verdade, mas que a espécie se adaptava muito bem a regiões de baixa altitude, com Foz do Iguaçu, onde o seu cultivo foi introduzido pelos nordestinos que vieram ajudar a construir Itaipu.
Mais uma lição do mestre Tonelli, a quem conheci em 1986, recém-eleito deputado estadual. Então com 35 anos, ele interrompeu a profissão de apicultor, nas barrancas do Rio Iguaçu, em Capanema, para assumir o cargo na Assembleia Legislativa do Paraná. Marcaria o seu mandato pela luta implacável e solitária que empreendeu contra as benesses e privilégios da classe política.
MORALIZAÇÃO
Ele não fez, porém, da moralização da ALEP uma bandeira demagógica. Deu exemplo, abrindo mão da aposentadoria parlamentar especial e de outros privilégios. Teve a coragem de denunciar os desmandos e falcatruas que desde aquela época estavam entranhadas no legislativo e no sistema político como um todo.
Mas a causa à qual dedicaria o seu mandato – coerente com os compromissos assumidos com os movimentos sociais que garantiram a sua eleição – foi a luta pela reforma agrária e em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais e do fortalecimento da agricultura familiar.
Em 1991, Tonelli foi eleito deputado federal, com expressiva votação.
Sua campanha foi frugalmente financiada com recursos arrecadados por meio de pequenas contribuições de amigos e simpatizantes e, sobretudo, da venda de mel em feiras livres em grandes cidades do Sul e Sudeste.
Eram outros tempos, quando a militância dos partidos de esquerda fazia toda a diferença.
ANOS COLLOR
O seu mandato na Câmara federal coincidiu com os tumultuados anos do governo Collor. Tonelli teve atuação destacada no Núcleo Agrário da bancada do PT. Levou para Brasília a mesma combatividade que já tinha demonstrado na ALEP. Mas sua voz acabaria quase inaudível em meio à polifonia de meio milhar de deputados.
O que pesou mais, no entanto, na sua decisão de não disputar novo mandato, em 1994, foi um certo desencanto e frustração com a atividade parlamentar, diante dos parcos resultados alcançados. Bastante a contragosto, no entanto, aceitou o apelo do partido para compor a chapa majoritária, como candidato a Senador. Derrotado, retornou a Capanema, voltando a ser um simples militante de base.
Nos anos seguintes, participou ativamente da política local, ocupando inclusive cargo de secretário municipal de Indústria, Comércio, Agricultura e Desenvolvimento. Tonelli só voltaria a participar de outra eleição estadual em 2010, como segundo suplente de Gleisi Hoffmann, que seria eleita Senadora da República.
A suplência do Senado, porém, não alteraria em nada a sua rotina.
Passadas as eleições, reassumiu as mesmas funções em Itaipu. Seu último gesto político significativo aconteceu em 2012. Contrariado pelas irreconciliáveis disputas internas para definir a posição do partido na eleição municipal daquele ano, Tonelli renunciou à presidência do Diretório Municipal do PT de Foz do Iguaçu e pendurou a chuteira.
PARTICIPATIVO
Aliás, desde que ele havia se mudado para a cidade, em 2003, em razão do trabalho assumido na Itaipu, Tonelli se tornara um cidadão participativo e atuante. Mas engana-se quem pensa que a política é a sua grande e única paixão. Na verdade, a sua paixão de toda a vida é Neli, sua esposa, e com ela, a dança.
A dupla Tonelli-Neli fez história no CTG Charrua. Este é o espaço social que o casal frequenta regularmente desde que optou por morar em Foz do Iguaçu. Não tem baile ou jantar no CTG que não conte com as suas ilustres presenças. Este é o seu modo de vida, que nunca mudou, nem durante os oito anos em que foi parlamentar, nem depois.
Nos tempos estranhos em que vivemos, Tonelli se destaca pela exemplaridade da sua trajetória. Nunca cedeu ao canto de sereia do poder. Jamais se afastou das suas raízes. Pautou sua vida pública e privada pela modéstia, humildade e coerência. Colhe como frutos o direito a uma aposentadoria tranquila e segura. Deixa Itaipu exemplarmente, sem qualquer privilégio.
Ter sido demitido por ele não me envergonha, nem provoca qualquer ressentimento. Desejo-lhe que os anos à frente sejam os mais felizes.
Que o seu exemplo de dignidade e desapego sirva de inspiração para a emergência de novas lideranças, de que tanto necessitamos.
(*) Paulino Motter, 51, jornalista auto exilado em Madri.
